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Há
cinco anos, Susana Carrilho aprontou-se de malas e bagagens para viajar
do Alto Alentejo para Lisboa. O motivo que a trazia à capital era
simples: entrar para o curso de psicologia, na Faculdade. Um sonho que
tinha desde nova, ou não fosse Susana muito decidida. Porém,
mal sabia a alentejana que, para além da viagem geográfica,
iria entrar também para um outro mundo: o do voluntariado.
Foi logo no primeiro ano do curso que pensei entrar para o voluntariado,
conta, confessando que antes nunca se tinha lembrado disso. Porém,
mais vale tarde que nunca, e a vontade de dar sem receber
chegava finalmente. Faltava agora passar da teoria à prática.
Para isso foi preciso o Filipe Silva, responsável pelo projecto
Esperança de Recomeçar, entrar em acção.
Ele é meu amigo, e um dia falou-me do Centro Comunitário.
Disse que eu podia vir aqui oferecer-me como voluntária,
recorda e assim o fez.
No início de 2003 atravessava os portões do Centro Comunitário
(CCPC). Uma entrada que, conta, foi muito difícil.
À semelhança de qualquer criança que pisa pela primeira
vez a escola, também Susana recorda esse dia como se fosse hoje.
Senti-me mesmo muito deslocada, mas um dos utentes veio logo falar
comigo. Se não me engano, passámos a manhã toda a
conversar.Nos dias seguintes foi tendo tempo para conhecer, a pouco
e pouco, cada um dos jovens que frequenta o Esperança de
Recomeçar, um espaço que procura ser uma segunda oportunidade
para pessoas que desejam deixar a toxicodependência. Porém,
lamenta a voluntária, esta torna-se, por vezes, na terceira, quarta
ou mesmo na quinta tentativa de largar o vício da droga. Para muitos,
até, é já impossível a salvação.
Tenho aprendido muita coisa no Centro, e uma delas é que,
em áreas como a toxicodependência ou a criminalidade, é
muito difícil a reabilitação.
Um abrir de olhos e um assentar os pés na terra, que foram as suas
grandes aprendizagens no Centro. Agora tenho conhecimentos que fazem
com que eu não vá para os meus primeiros acompanhamentos,
quando começar a trabalhar, a achar que vou conseguir reabilitar
essa pessoa, diz, optando hoje por falar em tentativas de recuperação.
Uma afirmação que demonstra a maturidade que conquistou
no voluntariado. Depois de tudo isto, vou conseguir lidar melhor
com as frustrações que descobri serem comuns na profissão
de psicóloga.O relacionamento com utentes tão especiais
foi outro dos seus grandes desafios. Tive de aprender a ser simpática,
sem dar, ao mesmo tempo, demasiada confiança, diz, referindo
uma barreira invisível que nem sempre é fácil de
estabelecer. Quando é preciso tenho de saber repreendê-los,
diz, mostrando que como psicóloga terá de ter braço
firme. Um saber dar e parar de dar que, diz, tem aprendido aos poucos.
Mais difícil de superar é talvez a dificuldade que tem em
relacionar-se facilmente com outras pessoas, devido à sua timidez.
Foi muito difícil estabelecer uma relação com
pessoas que são completamente diferentes de mim, recorda.Porém,
acrescenta, tudo isso está já quase totalmente ultrapassado:
«hoje em dia, o que mais faço aqui no Centro Comunitário
é jogar às cartas. Estou um perita em crapô
e na sueca».
E é entre uma e outra cartada que aproveita para dar dois dedos
de conversa com os muitos jovens que sabem já onde podem encontrar
um ouvido amigo.
É muito importante para mim saber que eles gostam de conversar
comigo, diz, revelando que os momentos mais felizes do seu voluntariado
têm sido aqueles em que recebe um sorriso. Eles é que
me motivam, porque se eu visse que não estavam interessados, também
eu me desinteressava. Um interesse mútuo que pode dar bons
frutos. Eu não sei se quando falo com os utentes estou a
dar a ajuda que eles procuram, não há nenhuma palavra que
faça milagres, mas, pelo menos, os que conversam comigo demonstram
sentir-se melhor no momento.
Por eles, diz, é que Susana Carrilho se dirige duas vezes por semana
ao Centro Comunitário, onde voluntariamente passa as manhãs
e tardes ao dispor de alguém que ainda tenha esperança e
vontade de recomeçar. Tendo iniciado o voluntariado no CCPC, promete
que veio para ficar. Mesmo quando começar a trabalhar, espero
poder ter tempo para vir ao Esperança fazer voluntariado.
Porquê? Simplesmente porque me sinto bem aqui.
(Cátia Silva)
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Susana
Carrilho
Estudante de psicologia
23 anos
Estuda no quarto ano de psicologia, tendo optado desde logo pela
vertente criminal. Sonha um dia reabilitar pessoas com passados menos
famosos, mas enquanto tal não é possível (pelo
menos a nível profissional) esta alentejana a viver em Lisboa
ajuda os utentes do Esperança de Recomeçar.
O tempo que lhe resta dedica-o à leitura, à televisão,
e aos sempre imprescindíveis amigos.
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