VOLUNTARIADO - experiências


Sebastião Magalhães é voluntário desde novo e muito graças à Igreja. Não sendo um fervoroso devoto, apreendeu desde cedo os valores da religião, e particularmente, “a importância da solidariedade”, refere, acrescentando que foi precisamente na Igreja que tudo começou. Tinha então cerca de 20 anos quando na sua Paróquia do Porto, cidade onde nasceu, pediram a ajuda dos jovens para acompanharem pessoas idosas e com pouca mobilidade de suas casas até à Igreja. Sebastião entrou então para um grupo que se dedicava a estas tarefas, tendo depois ingressado também no Movimento Shalom, que visa formar jovens cristãos nos valores humanos e da fé.
“Desde então, sempre que posso ajudo”, diz, enunciando o rol de acções de voluntariado em que já participou. “Pequenos actos”, insiste em acentuar. Mas em grande quantidade, acrescentamos nós. No fundo, o que o voluntário tem feito não é mais do que aceder aos chamamentos que lhe têm sido feitos, venham estes de Deus, para quem acredita, ou dos amigos. Começou por ser voluntário numa instituição de protecção a crianças menores, e depois conheceu pessoas da Comunidade Vida e Paz e durante seis anos ajudou os sem abrigo e os toxicodependentes, entregando refeições quentes e palavras calorosas em madrugadas de Inverno.
Um dia, um amigo falou-lhe de um senhor que estava numa situação complicada: iam amputar-lhe as pernas. O voluntário foi visitá-lo ao Egas Moniz e nunca mais deixou de passear com ele. Mais tarde, a Paróquia de Carcavelos pediu pessoas para visitarem idosos que estão sozinhos em casa. Sebastião Magalhães acedeu uma vez mais ao pedido, e tornou a fazê-lo nas Ceias de Natal do Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos (CCPC), nas recolhas de alimentos para o Banco Alimentar, entre muitas outras acções. Tudo por uma razão muito simples: “nos países mediterrânicos temos tendência a ser mais individualistas que nos nórdicos, que têm a tradição da pessoa dar em favor da comunidade. Eu sempre quis dar alguma coisa”.

A Psicologia
Se muitos de nós não conseguem numa vida realizar todos os sonhos, Sebastião Magalhães sabe que tem sido um privilegiado. A profissão que exerceu não foi provavelmente a que teria escolhido, mas cedo o voluntário soube que a sua vocação era a psicologia. Assim, a par do trabalho, tirou a licenciatura, estagiou e passou a dar algumas consultas. Porém, só nos últimos dois anos, já reformado, tem conseguido dedicar à psicologia o tempo que sempre desejou ter. A par disso, resolveu reforçar também o seu trabalho como voluntariado. “Isto tem a ver com a minha realização pessoal”, refere, “sempre achei que tinha recebido muita coisa da comunidade e agora estava na altura de dar alguma coisa”.
Posto isto, inscreveu-se como voluntário em vários locais. Tornou-se professor de Psicologia na Universidade da Terceira Idade, em Oeiras, psicólogo na Cruz Vermelha Portuguesa, e dá consultas gratuitas no seu consultório*. Também como psicólogo entrou no Centro Paroquial da Parede e, em Setembro do ano passado, no projecto Intervir do Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, procurando ajudar as famílias mais carenciadas. Isto porque, refere, “a patologia, quando existe, não tem uma só razão” e é comum problemas sociais serem causa ou efeito de problemas psicológicos. “Tenho pacientes que, em situações normais, se o país estivesse bem, não seriam pessoas para estar com problemas”, lamenta.
E enquanto a economia do país se deteriora, Sebastião Magalhães vai tentando ajudar com as armas que possui, ou seja, com as suas sessões de psicologia. “Podemos não conseguir que as pessoas fiquem completamente bem, mas às vezes o facto de funcionarem melhor já é bom”, diz. Melhorias que lhe dão ânimo para continuar o trabalho como voluntário. “É gratificante falar com alguém e a pessoa dizer: sinto-me melhor. O facto de elas sentirem-se bem faz com que eu me sinta bem”. Até porque, acrescenta, “a minha vida não passa só pela questão material, eu preciso de me sentir útil”. E se cada um de nós desse um bocadinho do seu tempo, na área para que tem vocação, a comunidade estaria com certeza muito melhor. Um ensinamento que o voluntário já passou aos seus filhos, também eles voluntários.

 

* Para mais informações, consultar www.psicologia-poc.com


(Cátia Silva)



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