VOLUNTARIADO - experiências
     

E porque não a dois?
Paulo Rebocho está a completar 26 anos e Teresa Dias tem 25. Coimbra, a cidade de Pedro e Inês, acolheu-os enquanto estudaram na Faculdade, ele vindo do Alentejo (Avis), e a estudar contabilidade, e ela de Oeiras, a aprender Direito. Foi há cinco anos que começaram a namorar. No final do curso, optaram por vir viver para junto do mar, embora o Alentejo faça sempre parte dos seus roteiros de fim-de-semana.
Os dois conseguiram encontrar emprego, mas sabem que a vida não é só trabalho, nem só namoro, nem só amigos, nem só cinema, nem sequer só praia. Faltava-lhes algo! Optaram pelo voluntariado. Porquê? “O objectivo era fazermos algo de que gostássemos mesmo”, diz Paulo. “Queríamos fazer alguma coisa que nos desse prazer”, acrescenta Teresa.
Paulo Reboucho ficou incumbido da missão de encontrar “esse algo”, para os fins-de-semana. “O volun-tariado nem sempre é fácil de se conseguir fazer. Inscrevemo-nos em montes de sítios, só nos chamaram aqui”, conta. Do Centro Comunitário de Carcavelos, sabiam pouco. “Tinha uma ideia do tipo de voluntariado que aqui se fazia, mas não conhecia mesmo o Centro”, recorda Teresa. Entre as várias áreas que o CCPC tem abertas aos voluntariado, das crianças aos idosos, passando pelo teatro, a música, o apoio a pessoas desfavorecidas, a deficientes e a toxicodependentes, resolveram não optar e seguir de acordo com as necessidades do Centro.


MISSÃO: Dar aulas a Estrangeiros

Nos escassos segundos que a Internet hoje permite fazer chegar a inscrição de Paulo e Teresa ao Centro Comunitário, já havia uma área disponível, à espera de voluntários para poder abrir. Tratava-se dos cursos de português para estrangeiros, que começou em Maio. Não existindo material escolar, nem experiências anteriores, os dois voluntários arrancaram com o projecto num regime de autodidactas. Entre os manuais escolares e as aulas do curso de espanhol que Paulo nessa altura frequentava, surgiram exercícios e métodos de ensino que começaram a adoptar. “Nunca demos aulas antes, mas costumávamos sempre dizer que um dia gostávamos de ter essa expe-riência”.
Ela surgiu mais rápido do que esperavam, e todos os sábados de manhã o casal dá uma hora e meia de aulas de português. “Começá-mos por ter 3 ou 4 alunos, mas depois há uns que se vão embora e outros que vão surgindo”, contam. Por outro lado sentem que o grupo é muito diferente, podendo surgir numa mesma aula pessoas que tiveram já na Faculdade e outras que não sabem ler nem escrever. “Estes podem já estar em Portugal há algum tempo, mas como vêm com o marido ou os filhos e muitas vezes estão desempregadas, acabam por só falar a sua língua e não praticam o português”, conta Teresa. Porém, os voluntários não se deixam abater. Quando isto acontece, dividem a aula em dois grupos. E, em relação à pouca assiduidade dos alunos, contam com muito orgulho: “há uma aluna que vem desde o início”. “É muito gratificante. A aula se fosse às 10 horas e se chegássemos às 09h30, ela já lá estava sempre”, continua Paulo. “Transmite-nos uma grande força de vontade”, diz Teresa.
Os voluntários começam então a dar outros exemplos de alunos que recordam pelo nome e que lhes têm dado grandes alegrias. “Na última aula houve uma aluna que pediu desculpa por chegar atrasada, quando ficou mais de uma hora à espera do autocarro para vir à aula!! conta Paulo, enquanto recorda outra situação com uma aluna que “veio a umas cinco aulas apenas, porque depois começou a trabalhar. E um dia estávamos os dois no supermercado e vimo-la. A Teresa chamou-a e ela abalou a correr na nossa direcção... deu um salto, e trás... deu-nos um abraço enorme”, recorda entre risos, e com o seu sotaque bem alentejano. “Estas pessoas, muitas vezes, parece que não lhes estamos a dar nada mas elas estão a agradecer-nos imensa-mente”, diz Teresa. “Eles vêem-nos como alguém que está a perder tempo com eles, pois muitas vezes fecham-lhes muitas portas, e nós estamos a ajudá-los”, conclui Paulo. Vidas nem sempre fáceis que se podem tornar tema de conversa em algumas aulas. “Já chegámos a vir dar aula e não demos aula nenhuma”, contam, até porque essas manhãs são um espaço, acima de tudo, dedicado à comunicação. “Como alguns não sabem ler nem escrever, não adianta muito às vezes estarmos com grandes exercícios e até se pode tornar cansativo. Queremos fazer com que eles falem. Não é tanto fazer com que falem o português totalmente correcto, mas que tenham desenvoltura para falarem no dia-a-dia”, diz Teresa, enquanto apresenta o exemplo da sua aluna mais assídua. “Na primeira aula não dizia nada, nem se apresentava. Nas últimas tem sido o elo de ligação entre nós e alguns alunos que não falam português. Já é ela que lhes explica as coisas”.
Por tudo isto, não pensam sequer em mudar de actividade de voluntariado e menos ainda em deixarem de ser voluntários. Isto porque, como diz Teresa, “é tão gratificante não só estarmos a dar alguma coisa às pessoas, mas também aquilo que elas nos dão”.

(Cátia Silva)

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