VOLUNTARIADO - experiências

Natércia Casanova viveu sempre uma vida regular, feliz, sem grandes preocupações. Um dia, apercebeu-se que estava sozinha, tendo perdido os seus entes mais queridos. Por isso, resolveu participar num passeio organizado pelo Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos e, desde então, nunca mais de lá saiu.
Pouco tempo depois, foi ao Centro apresentar-se como possível voluntária. "Queria fazer qualquer coisa, ofereci-me para a função onde considerassem que eu seria mais útil", conta. E acrescenta, "nessa altura tinha algum tempo livre e gostava de o ocupar com algo que fosse válido".
Além desta razão, a voluntária confessa que queria pertencer à equipa do Centro Comunitário, que hoje tanto admira. "Todos desempenham actividades humanitárias com grande empenho e carinho". Uma atitude verdadeiramente voluntariosa que Natércia Casanova também adoptou.
Hoje, é voluntária no Banco de Roupa, onde procura aquecer, calçar e embelezar os mais necessitados. "Contacto com muitas pessoas e a todas trato com compreensão e carinho", afirma. A voluntária faz o possível e o impossível para não deixar ninguém sair "de mãos a abanar" mas, muitas vezes, o problema das pessoas que se dirigem ao Banco de Roupa é bem mais interior que a falta de vestuário. Uma nudez na Alma que Natércia procura cobrir. "Tento sempre aconselhar e, caso possível, encaminhar as pessoas".
Por isso, a função de Natércia Casanova vai bem mais além da simples distribuição de vestuário e calçado. "As pessoas que aparecem no Banco de Roupa têm sempre alguma coisa para nos contar", revela, "e nós temos sempre uma palavra amiga para dar em retorno". Palavras que muitas vezes valem mais que mil peças de roupa. "Depois, saem reconfortados, porque sentem que há ali alguém que se interessa por eles e onde podem ir sempre que quiserem", conclui.
Até hoje, já contactou com centenas de pessoas, cada uma com uma história de vida e, por vezes, uma importante lição. "Nós também aprendemos com eles", revela. Ensinamentos preciosos que a voluntária recorda com carinho.
No entanto, e apesar dos momentos de alegria que já passou no Banco de Roupa, quando lhe pedimos para lembrar uma pequena história que tenha vivido, recorda os piores momentos por que passou. "Estávamos ainda nas instalações antigas quando, um dia, ao abrir o portão principal vi que tinham arrombado a porta onde estavam todos os artigos que distribuíamos", recorda, com a mesma expressão de pânico. E continua, "estava tudo um verdadeiro pandemónio, vidros partidos, tudo fora das prateleiras e as coisas que restavam estavam espalhadas pelo chão".
Nessa altura, percebeu de imediato quem tinha roubado os artigos doados ao Banco de Roupa e nesse mesmo dia pôde comprovar o seu palpite. "O ladrão tornou a aparecer, com uma mala que nos pertencia na mão. (De certeza que não me esperava ali)", acrescenta. De imediato, a voluntária atirou-se à mala como uma leoa que defende os seus próprios filhotes. "Eu puxava de um lado e ele do outro". Uma luta que rapidamente terminou com a fuga do ladrão. "Ainda corri atrás dele", diz, "mas foi em vão".
No dia anterior, tinha já roubado várias dezenas de roupas de um espaço que apenas pretende ajudar os mais carenciados. Um episódio que quer esquecer, especialmente porque se tratava de uma pessoa que tinha anteriormente ajudado bastante. "Nunca mais o vi".
Para finalizar, Natércia Casanova deixa uma mensagem a todos aqueles que ajudam o próximo sem esperar nada em troca. "Nunca se arrependam de ser voluntários, porque é uma dádiva de Deus".

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Natércia Casanova
Carcavelos
Reformada


Quando perguntamos a Natércia Casanova a sua idade, diz ter aquela que aparenta. Alfacinha de gema, nasceu bem perto do Castelo de São Jorge, no topo de uma das sete colinas que caracterizam a capital portuguesa. Teve uma infância feliz, que descreve como «igual a tantas outras», até que começou a perder todos os que mais gostava. Hoje é uma mulher «só e independente», o que, por vezes, lhe traz «dificuldades e apreensões».