VOLUNTARIADO - experiências
     

Maria Manuela Carmona é daquelas pessoas que facilmente percebemos que nasceu para ensinar. Logo na primeira conversa com o Ágora, ainda ao telefone, a sua voz e postura fizeram-nos lembrar alguns dos professores do liceu. Quando a conhecemos melhor, percebemos mais facilmente que alia uma grande simpatia ao sentido de profissionalismo, responsabilidade e rigor, que considera que se deve aplicar a tudo o que fazemos na nossa vida.
Conheceu o ensino ainda jovem, quando começou a leccionar geografia aos alunos adolescentes do secundário. Depois de 26 anos nas escolas, passou a formar professores, em Oeiras, num Centro pertencente ao Ministério da Educação, que dirigiu. Aos 57 anos sentiu que estava na altura certa de parar. "Foi uma opção. As pessoas têm a sua altura de actuarem enquanto activos... e depois de actuarem na reforma, continuando a ser activos", defende. E assim fez...
"Eu sempre disse que quando me reformasse queria ser voluntária", dado que só então teria o tempo que lhe faltou com a sua actividade profissional, a organização de conferências e de cursos de formação, a pós-graduação que fez em Ensino Especial e a educação dos seus dois filhos. "Para ser voluntária tenho de estar predisposta a fazer isso, senão também não tem interesse". E mal se reformou procurou o voluntariado, no Hospital S. Francisco Xavier, onde continua até hoje. "Estou duas vezes por semana na parte do atendimento geral, mas o que queria era trabalhar com os jovens, dar apoio à parte da pediatria".

O Centro Comunitário
A par da actividade que procurou no Hospital, surgiu-lhe a possibilidade de ser também voluntária no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos (CCPC), que conhece desde que este abriu as suas portas. "Conheço as actividades que fazem, acompanhei sempre as conferências que organizam,...", e se acrescentarmos a isto os factos de: ter conhecido bem o Padre Aleixo; do seu marido, Rogério Carmona, ter dirigido durante muitos anos o coro da Igreja de Carcavelos e ter frequentado sempre o Centro; e do seu compadre, Neo Pereira Bastos, ter pertencido à direcção do CCPC, facilmente percebemos a ligação que manteve ao longo dos 25 anos desta casa.
"Mas, nunca cheguei a colaborar mesmo com o Centro", conta, acrescentando que tudo aconteceu por coincidência (ou força do destino, acrescentamos nós). Reformada desde o final de Julho deste ano, esteve o mês de Agosto de férias e em Setembro visitou o CCPC para assistir a mais uma das conferências que aqui se realizam. "Estava lá a São [directora], que me disse que precisavam de professores para alfabetizar adultos. Disse logo que sim, que estava disponível". E foi assim que assumiu o compromisso de, voluntariamente, ensinar oito alunos todas as segundas e quartas-feiras, entre as 10 horas e as 11h30.
Apesar de nunca ter trabalhado no ensino das bases do português, empenhou-se em ver alguns livros e tinha também noções de como se processa esta aprendizagem. Porém, foi ao conhecer melhor os alunos que percebeu rapidamente como deveria dar as aulas. "São pessoas que querem é ver os resultados, o trabalho prático, por isso, não vou dar logo teorias e regras", explica, enquanto acrescenta: "eles querem, no fundo, aprender a ler, pois o seu grande desgosto é não conseguirem, por exemplo, ir ao supermercado e ler o que está escrito nos produtos, ou ir ao cinema e não conseguir ler as legendas". Pessoa que diariamente sentem, na pele, os obstáculos e as portas que se fecham quando não se sabe ler ou escrever.
Na conversa que a voluntária teve com o Ágora sobre estas aulas, facilmente se percebe que dedica a estes alunos muito mais do que três horas por semana, pois pensa em cada um e nas suas necessidades quando prepara as lições. Falando um a um sobre eles, indica-nos as suas principais carências e as suas diferenças, dado que alguns não sabem ler e não conhecem o abecedário, outros lêem mas não escrevem, e há ainda os que sabem ler mas não entendem o sentido das frases. Desigualdades no nível escolar que são a principal dificuldade da professora, mas que não a perturbam demasiado. "É uma pedagogia diferenciada que tenho de aplicar, mas eu já a tinha aprendido no ensino".
E nos pouco mais de dois meses que decorreram desde que começou a ensinar estes oito adultos, já são visíveis progressos. Melhorias que a deixam feliz, mas que não são a principal razão porque tem gostado tanto desta experiência. "Sou uma pessoa muito motivada e gosto de trabalhar com pessoas motivadas", conta, revelando que é a sala sempre cheia de alunos que a faz querer continuar neste voluntariado. Até porque, acrescenta, "eu gosto de ensinar, é o que eu gosto, e não me custa nada fazer isto". Irá continuar? "Continuo enquanto os alunos quiserem, ou seja, enquanto se mantiverem motivados. Quando eles se forem todos embora ou o Centro achar que não precisa de mim, roda", que é como quem diz, virá outro voluntário. Não nos parece que esteja para breve...


(Cátia Silva)

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Maria Manuela Carmona
57 anos

É casada e mãe de dois filhos, uma rapariga de 30 anos e um rapaz de 24 anos. Está reformada há poucos meses da actividade de professora, mas continua a ensinar, pois é isso que mais gosta de fazer. Tem ainda uma outra paixão, que mantém como hobbie: cozinhar, experimentando novas receitas. A leitura é também uma forte companhia, mas foi sempre nas cores das montras das lojas que deixou o stress dos dias mais cansativos de trabalho.