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Maria João Marques tem agora 32 anos mas foi ainda adolescente
que descobriu o voluntariado. Uma amiga, conta, dava aulas de catequese
na Igreja Nova de Oeiras e um dia pediu que a fosse ajudar. "Assim
dávamos as duas e era mais giro". Acedeu aos pedidos da colega
e foi de forma quase inconsciente (como qualquer teenager) que começou
a dar aos outros de livre e espontânea vontade.
Depois surgiu o coro da Igreja, onde também participou. E mais
tarde começou a ajudar a mãe na sua tarefa de compor os
arranjos florais para a Igreja do Alto da Barra. "Era um bocado pesado
para ela fazer todo o trabalho e por isso pensei ajudá-la".
Confessa que nessa altura nem sequer sabia fazer jarras de flores. Hoje
já tem algumas a enfeitar a sua própria casa.
E assim foi através de coincidências (se é que elas
existem) que chegou ao voluntariado. "Têm sido mais acasos
que aquela ideia de cavaleiro andante", confessa. Porém, no
início de 2003 resolveu "pegar no cavalo" e "partir"
em busca de uma actividade que a tornasse ainda mais útil, uma
vez que está empregada em regime de part-time. A busca, porém,
não foi nada poeirenta (como seria no século XIX) e baseou-se
em métodos bem modernos: a Internet. "Encontrei o www.centrocomunitario.net
e vi que havia voluntariado em algumas áreas que me interessavam".
Foi então ter com a Natércia e desde logo esclareceu que,
pela sua timidez, não queria uma actividade que a obrigasse a trabalhar
com muitas pessoas ao mesmo tempo. Uma confusão que realmente a
aflige, diz. Mas como no Centro Comunitário há voluntariado
para todos os gostos e feitios, também para Maria João Marques
se encontrou aquela que a própria apelida de "situação
ideal": organizar os brinquedos que a população doa
para os mais carenciados.
A voluntária revela ser especialmente dotada para as arrumações
e é com esse espírito organizador que se dirige uma vez
por semana ao sótão do Centro Comunitário, onde (supostamente)
deveria desempenhar uma fácil missão. No entanto, e por
ironia do destino, aquilo que inicialmente encarou como simples revelou
ser bem complicado. "Eu sou filha única, o meu marido é
filho único, não temos filhos e eu não sei lidar
com crianças". Uma realidade que faz com que seja bastante
complicada a sua relação com os brinquedos.
"Nem sempre os bonecos chegam nas melhores condições
e, por vezes, é preciso montá-los", diz, em jeito de
iniciação a uma das muitas histórias que já
lhe aconteceram. "Uma vez apareceu um barco de piratas grande. Mas
primeiro que eu percebesse que as bolas cinzentas que eu via no saco eram
na verdade balas de canhões...", recorda, entre risos. Um
desconhecimento que torna esta experiência ainda mais única.
"Quando o meu herdeiro vier, já tenho prática".
Não se pense, no entanto, que o voluntariado no Centro lhe serve
apenas de treino para o futuro mas este é também um forte
pretexto para Maria João regressar à infância. "O
difícil para mim é pensar que não estou ali para
brincar, que tenho apenas de verificar se estão as peças
todas e depois arrumar". Apesar deste desejo frequente de ser criança
por várias horas, a voluntária dedica-se responsavelmente
a organizar os brinquedos que depois são distribuídos pelos
mais novos.
"De quinze em quinze dias os bonecos saem com a distribuição
de alimentos. Assim tenho a sensação gratificante de ter
contribuído para fazer mais umas crianças felizes",
diz, apesar de achar que o seu trabalho é apenas uma pequena peça
do puzzle. "Parece um bocado ridículo eu sentir-me tão
bem uma vez que o que eu faço não é importante, mas
quando eu colo a peninha da asa de um boneco sinto que estou a fazer alguma
coisa por alguém".
Uma tarefa que a faz esquecer os problemas do dia a dia. "Todos achamos
que as nossas dificuldades são as maiores do mundo e que as chatices
são sempre as nossas. Mas se olharmos para o lado percebemos que
são apenas umas migalhinhas". Uma consciência que adquiriu
com o voluntariado. "Passamos a ver as coisas com outros olhos".
Um olhar diferente que quer manter para o resto da sua vida.
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Maria
João Marques
Carcavelos
32 anos
Maria João Marques tem 32 anos e é casada. O que
realmente gosta é de estudar e foi essa paixão que a levou,
após licenciar-se em Direito, a ingressar no curso superior de
História. Quando este terminar, arrisca, "talvez faça
outro". Não tem filhos e confessa que as crianças
não são o seu forte, já com os animais tem uma
atitude verdadeiramente maternal. É "mãe" de
três gatos siameses mas a sua tristeza ao falar dos animais abandonados
deixa facilmente perceber que gostaria de adoptar todos os que encontra.
Porém, e apesar do apartamento não permitir um apadrinhar
em massa, a voluntária afirma: "vivo feliz e contente".
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