VOLUNTARIADO - experiências

Quem nunca entrou no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos provavelmente não o saberá, mas todos os que pisaram o seu chão conhecem o ar que se respira: dar aos outros o que de melhor temos em nós. Numa conversa com mais um casal singular que frequenta o CCPC, descobrimos as bases desta natureza: o Sr. Padre Aleixo e as pessoas de quem este se rodeou para erguer o Centro Comunitário, nomeadamente o conhecido Sr. Fradique Ribeiro. Para Lisete, sua mulher, chama-se apenas Fernando José e é também o grande res-ponsável pela sua ligação ao espírito voluntário. “Ele é bem mais disponível e capaz de sair do seu cantinho que eu, e ele puxa por mim”.
Esta ligação dos dois sexagenários está prestes a completar os seus 37 anos e, dizem, “foi em conjunto que descobrimos a importância de agir”. Um entendimento que sempre esteve implícito no seu casamento, sem nunca ter sido preparado ou pensado. “Teve muito a ver com o facto de vermos a vida de casal como algo que não se esgota no espaço doméstico. Além disso, como casal, sempre entendemos que fazer trabalho em conjunto é um aspecto fundamental, pois as vidas profissionais já nos roubam tempo demais”.
Porém, continua uma questão por responder: porquê o voluntariado? A resposta, na qual nunca tinham pensado, aponta para dois caminhos. Primeiro, ambos são oriundos de famílias muito fechadas no seu próprio mundo, podendo ser o seu estilo de vida volun-tarioso uma reacção. Em segundo, conta Fernando José: “talvez tenha a ver com o contacto com deficientes que os dois tivemos muito cedo”. O Sr. Fradique devido a um irmão que ficou tetraplégico e Lisete por, como enfermeira, trabalhar com deficientes motores. “Muito cedo descobrimos o que a vida é importante para essas pessoas e o valor das coisas pequenas”, diz, recordando um cego que esteve consigo num campo de férias: “íamos correr pela floresta, ele colocava a mão no meu ombro e eu ia dizendo quando saltar... Era uma alegria para ele...”

Ideias para melhorar o mundo...
Com este passado, a primeira coisa que fizeram enquanto casal foi juntarem-se a uma Paróquia para fazerem trabalho voluntário. Porém, foi só quando foram viver para Carcavelos que se juntaram à Paróquia de Carcavelos e àquele que hoje confessam ter sido um verdadeiro guia: o Sr. Padre Aleixo. Foi assim que o seu espírito voluntarioso se ligou à Igreja, num laço que não mais se desfez. “Não é fundamental estar-se ligado à religião para fazer intervenção social, mas para nós é muito claro que o facto de sermos cristãos é uma responsabilidade acrescida e, no nosso caso, é difícil separar a Igreja do voluntariado”.
Desde que entraram na Paróquia de Carcavelos, há 32 anos, Lisete e Fernando José ajudam outros noivos a descobrirem os prazeres e as dificuldades da vida a dois, tendo também feito o acompa-nhamento de grupos de jovens. Além disso, pertencem ao grupo dos mais resistentes, que anualmente organiza encontros/palestras anuais em torno de um tema. Ainda enquanto casal, integram as Equipas de Nossa Senhora, onde dão formação para a iniciação no movimento, fazem acolhimento a noivos, e participam com novos projectos, que os próprios sugerem – é o caso do livro que reúne as histórias dos 50 anos das ENS. No Centro Comunitário de Carcavelos participam como casal e como indivíduos. Em conjunto apoiam sempre que é preciso, como foi o caso dos recentes “Cem Gestos de Solidariedade”, cujo resultado está em exposição no Centro Cultural de Cascais.
Isoladamente, Lisete é voluntária na formação de pessoas que estão inscritas na UNIVA/Centro de Emprego, procurando aumentar as suas competências na forma de estar e de falar. Já o Fernando José é um dos grandes pilares de sustentação do Centro Comunitário de Carcavelos, ajudando a resolver os problemas básicos que ninguém chega nunca a perceber e nos quais ninguém pensa: o edifício e a sua estrutura. Tendo estado presente nas primeiras obras de construção do CCPC, manteve-se depois na Comissão de obras até à construção do pavilhão polivalente. Depois de um período a que chama de descanso, volta agora para ajudar na construção do novo edifício do Centro. É caso para dizer que já faz parte dos alicerces!
Para além de estar presente nestes momentos importantes, Fernando José apoia sempre que há proble-mas no Centro e na Casa Jubileu, nomeadamente com a electri-cidade, os canos, a água, e inúmeros outros pequenos por-menores que permitem o bom funcionamento dos dois edifícios.Lisete ajuda ainda em inúmeros projectos da Escola de Enfer-magem onde leccionou, como a criação de uma Biblioteca itinerante para os países de África lusófona e a organização de um livro com o trajecto da escola. Porém, apercebem-se, “nunca lhe chamámos voluntariado, é mais um estilo de vida. Enquanto cidadãos temos a responsabilidade de pôr a render as nossas capacidades”. Para Lisete e Fernando José, o seu papel é “interagir com as pessoas e provocá-las. Quando nos en-volvemos é sempre uma questão de provocação às pessoas que estão instaladas e levá-las a fazer qualquer coisa”. Para os leitores que estão já a pensar que não têm tempo, respondem com uma máxima do Sr. Padre Aleixo: “é por estares muito ocupada que eu te peço, pois normalmente são os mais ocupados que têm mais tempo”. Aos leitores que estão já a dizer que o voluntariado é coisa de rico, também respondem: “há muita coisa que pode ser feita e não é preciso dinheiro”.
“Criticar só, é desonesto. A pessoa para criticar tem de ter alternativa e esse tem sido o nosso princípio básico”. Assim, sempre que acham que algo não está bem e que deveria ser feito de outra maneira, arregaçam as mangas. Falta de ideias? “Basta uma reunião na Paróquia para aparecerem milhentas ideias”. Depois, é só arriscar e não ter medo de errar. “Estar sentado todas as noites a ver televisão é que não tem piada nenhuma. A rotina é a pior coisa que pode existir, por isso estamos sempre a procurar a maneira mais original de fazer as coisas. E depois descobre-se que há espaço para ter ideias e fazer-se coisas novas”. Em jeito de resumo, diz Fernando José: “Tudo isto fundamentalmente, não é passar pela vida, é estar na vida”. Lisete conclui: “Não queremos viver a vidinha, mas a Vida com letra grande”. Assim, uma das maiores lições que Lisete e Fernando José ensinam é a do poder da mente e do “meter a mão na massa”. Se pararmos um pouco para olhar para o lado percebemos que há muito para fazer, o que é preciso é ter ideias, começar, e depois o vício do bem estar que dar aos outros provoca já não nos deixa parar.


(Cátia Silva)

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Lisete e Fernando José Fradique Ribeiro