VOLUNTARIADO - experiências

«Não houve um momento em que tenha decidido ir para o voluntariado, sempre decidi», diz Maria Leonarda, no seu jeito acelerado e bem disposto. «Nos tempos de liceu, tinha eu uns 16 ou 17 anos, ia para os hospitais visitar velhotes meus conhecidos que entretanto adoeciam». Entre as quatro paredes do hospital, Maria Leonarda sentia-se bem, mas a vida levou-a para uma rota diferente. «Sempre pensei que iria trabalhar nos hospitais, mas arranjei trabalho como hospedeira de bordo na TAP e por questões (também) monetárias fiquei por lá».
Há dois anos e meio o passado sorriu-lhe e Maria Leonarda conseguiu a reforma antecipada. «Queria deixar de trabalhar para fazer aquilo que gostava: as minhas duas grandes paixões, ensinar e trabalhar nos hospitais». Rescindiu então o contrato num dia e no outro começou a trabalhar como voluntária no Instituto Português de Oncologia, onde continua até hoje. Todas as quartas-feiras visita as enfermarias dos acamados com livros que traz da biblioteca, numa verdadeira missão de levar a “montanha a Maomé”.
Se trabalhar nos hospitais era já uma realidade, o ensino veio logo a seguir (apesar de Maria Leonarda ter durante toda a vida dado explicações a amigos e familiares). «Três vezes por semana dou aulas de língua portuguesa aos jovens com paralisia cerebral do Centro Nuno Belmar da Costa», conta. Além disso, ajuda duas vezes por semana nos jantares e dá sempre uma mãozinha aos alunos para colocarem o quarto em ordem.
E como prova de que os últimos são muitas vezes os primeiros, Maria Leonarda chegou por último (até hoje) à “família de voluntários” (permitam a expressão) do Centro Comunitário. A sua irmã era já voluntária do projecto Intervir, dando aulas de alfabetização de adultos a pessoas carenciadas, mas há pouco mais de um ano foi preciso mais uma professora e Maria Leonarda prontificou-se a ajudar.
Quando a este ano lectivo, a voluntária conta que tem cerca de oito alunas mas lamenta que a maioria raramente esteja presente. «Estas minhas alunas são muito flutuantes», diz carinhosamente. «Ora arranjam emprego, ora os filhos adoecem, ora adoecem elas próprias», diz, enumerando os muitos obstáculos ao ensino. Numa média de três alunas por aula, a voluntária por vezes desmotiva-se, confessa. «Moro em Linda-a-Velha e chego aqui e há dias em que não tenho ninguém, é desanimador, pois eu mal tenho tempo para comer. Por vezes sinto que estou subaproveitada».
Um pensamento que rapidamente deixa de lado ao perceber os laços de amizade e de reconhecimento que criou com as suas alunas. «Não me lembro de nenhuma situação em concreto mas sinto que elas gostam de mim», diz, procurando ser modesta. «Para elas sou eu que lhes proporciono uma mais valia, como se estivesse a fazer com que fiquem mais “valiosas”». O valor acrescido do ensino, que desde o primeiro dia todas reconhecem. «Aparecem sempre arranjadinhas e fazem os trabalhos de casa».
Um esforço por melhorar a vida, que acaba por se revelar um caminho bastante difícil. «Em termos de sucesso escolar é complicado, pois há um certo bloqueio resultado de muitas carências». Mas os resultados aparecem ao nível emocional. «A aula é das 12.30 às 13.30 mas eu fico sempre mais uma meia hora para falar um pouco com elas, pois não é só chegar lá e debitar matéria, a parte humana é fundamental», refere. Uma forma única de Maria Leonarda alimentar “cabeças” ao mesmo tempo que “almas”.
Quando tentamos perceber porque faz tudo isto como voluntária, facilmente responde: «eu sempre disse que se não tivesse trabalho trabalhava na mesma, pois não faz sentido uma pessoa estar viva e não ser útil à sociedade. Como economicamente não tinha necessidades, fui para o voluntariado». Uma naturalidade e simplicidade que mantém nas respostas sobre o futuro: «vou continuar como voluntária, só paro se estiver doente ou morrer. Enquanto estiver viva e com saúde, faz todo o sentido para mim».
(Cátia Silva)

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Maria Leonarda
60 anos
Linda-a-Velha
Reformada


A um ano de completar o seu 60º aniversário, Maria Leonarda Carvalho e Branco mantém a mesma vivacidade e aceleração de uma vida como hospedeira de bordo. Com um filho e dois enteados já “maiores e vacinados” e três netinhos ainda pequenos, a voluntária é, desde há dois anos e meio, alguém que conseguiu fazer exactamente o que sempre gostou: ensinar e trabalhar em hospitais.