VOLUNTARIADO - experiências

Ser voluntário é, para muitas pessoas, inscrever-se numa instituição e trabalhar sem receber qualquer remuneração. Embora a definição esteja correcta, são já muitos os que afirmam que mais do que assumir um projecto específico, ser voluntário é um estado de espírito. É provavelmente esta a melhor forma de descrever João Pedro Costa, que se inscreveu institucionalmente como voluntário há cerca de dois anos, no Centro Comunitário de Carcavelos e no Centro Comunitário da Galiza, mas que é voluntário desde muito novo. Na verdade, o prazer em dar sempre existiu, mas apenas agora a vida lhe deu estabilidade e tempo para se inscrever em instituições de solidariedade social.
“Eticamente, acho que devo dar do meu tempo livre”, defende. E até há bem pouco tempo foi isso que lhe faltou. Começou por viver em Macau, onde criou uma associação ligada à voz, à rádio e à formação musical e onde, paralelamente ao negócio, dava aulas gratuitas aos mais necessitados. Regressou a Portugal há meia dúzia de anos, mas durante algum tempo fez viagens constantes a França para fazer reportagens de rádio, enquanto colaborador freelancer em rádios nacionais. Apenas recentemente aterrou em Oeiras e ficou a trabalhar a partir de casa, no seu estúdio e em projectos de rádio via Internet.

O mundo dos computadores
Tendo desde há dois anos disponibilidade para aceitar o compromisso que o voluntariado institucional exige, inscreveu-se em www.voluntariado.pt com o objectivo de “fazer com que a vida dos outros seja menos difícil ou, pelo menos, mais agradável”. E foi assim que chegou ao Centro Comunitário de Carcavelos e ao seu espaço sénior. Originalmente, ainda pensou fazer alguma coisa na área da juventude e da rádio ou da voz, mas facilmente percebeu que a faixa etária mais carenciada era a dos seniores. Explicou então que tinha disponibilidade de duas horas semanais e rapidamente chegou ao projecto no qual se mantém até hoje: ensinar introdução à informática aos mais idosos.
“Não tinha absolutamente nenhuma experiência nesta função”, confessa, mas esta era uma área para a qual tinha facilidade e em que tinha já servido de “professor” para alguns amigos. Mais difícil poderia ser definir o programa curricular para esta população, mas João Pedro Costa não é pessoa de se atrapalhar frente a estes desafios. “Sabia que há três bases no computador: escrever uma carta, saber onde arrumar tudo o que se faz [criar pastas/folders] e a Internet”, refere. A partir daqui, foi a sensibilidade que lhe indicou o caminho. “Estas pessoas queriam conhecer os computadores, mas também quebrar o isolamento. Querem falar com os amigos e com os familiares mais remotos. Querem acompanhar a família que está longe”.
Mas, cada coisa a seu tempo... e João Pedro Costa recorda bem os complicados primeiros tempos. Antes mesmo de ligar o botão dos computadores, foi preciso familiarizar os alunos com umas máquinas com as quais não nasceram e das quais pouco ou nada conheciam. Para os mais novos tudo é fácil e praticamente inato, mas facilmente se percebe que quem nunca mexeu num computador não entenda como funciona o rato, como é possível mexer a mão direita por cima de um tapete e fazer o cursor andar no ecrã do computador. Ou que tenha dificuldades em escrever num teclado, quando a sua geração escrevia à mão, ou que dificilmente compreenda como é que existem várias pastas no computador semelhantes às gavetas de um armário, só que estas não são palpáveis.
No entanto, destaca o voluntário, “pouco mais de um ano depois [e com apenas uma aula por semana] os alunos já estão a enviar emails com anexos, a copiar imagens da Internet, a ver DVDs no computador, ....”, e muito em breve estarão também a ver a cara dos seus netos em tempo real, através do skype, e a comunicar com a família por um microfone. Tudo porque, enaltece, é uma turma muito assídua e interessada. “Vêem-se exactamente os mesmos olhos a brilhar das crianças”, explica o voluntário, demonstrando que isso o motiva e que todos os dias consegue ver nesses olhos o agradecimento pelo tempo dispensado. Porém, faz questão de acrescentar que esta “aventura” tem sido, também para si, “um prazer”. E, mais do que isso, defende: trata-se de uma obrigação de cidadania. “O trabalho comunitário devia ser inerente ao nosso quintal, ao nosso jardim, à nossa rua”.


(Cátia Silva)



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João Pedro Costa
47 anos

Tem um filho de 10 anos com quem gosta de passar bastante tempo, preferencialmente na praia. Formado em filosofia, trabalhou durante muitos anos na rádio, mas hoje em dia dedica-se a projectos pessoais que entretanto conseguiu concretizar. E são estes que lhe permitem a sobrevivência, que para si é o suficiente, pois hoje em dia privilegia a qualidade à quantidade. No tempo livre (que faz questão de ter), dedica-se ao voluntariado e a projectos artísticos, como o seu grupo de música, os Swordswing, que por enquanto apenas toca no mundo virtual, em http://podcast.diporg.com.