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O mundo do voluntariado surgiu quando Joana era ainda uma teenager (o
que já prova que não era inconsciente). Recorda que tinha
quinze ou dezasseis anos quando veio preencher a ficha de voluntário
e lembra-se de escolher a área da toxicodependência.
Porém, acabou por ser colocada no Outro Lado do Jogo,
um projecto que já terminou. Eram Sábados dedicados às
crianças do Bairro das Marianas: de manhã, os monitores
davam explicações, à tarde, «brincávamos».
Joana começou logo no fim-de-semana seguinte e ficou até
ao fim, três anos depois, quando as crianças foram realojadas
para locais afastados do Centro Comunitário.
Dos anos passados no Outro Lado do Jogo, recorda várias
histórias. Passaram-lhe pelas mãos casos complicados de
crianças maltratadas, sexualmente abusadas e muito traumatizadas.
Mas que, «apesar de tudo, eram apenas crianças».
E é com grande ternura que recorda um dos piores casos que conheceu:
o terrível Zé, um menino de apenas 4 anos. «Ele só
nos chamava nomes, não falava, só cuspia, batia-nos, não
nos deixava sequer aproximar dele».
No entanto, no final do Outro Lado do Jogo, já com
7 anos, era «um miúdo muito diferente e isso foi algo de
que nos orgulhamos imenso, pois percebemos que, pelo menos naquela criança,
tínhamos tido alguma influência».
E ri-se agora, ao recordar que, uns tempos depois, os monitores foram
visitar o Bairro das Marianas e todos receberam um beijinho do Zé.
Desta primeira experiência, ficaram os amigos, as fotografias e
o contacto com algumas das crianças. Hoje, não consegue
deixar de sentir alguma responsabilidade no facto de algumas raparigas,
que estiveram no projecto quando eram ainda crianças, nunca terem
desistido dos estudos e terem mesmo seguido a área da animação
social. «Sentimos, de alguma maneira, que influenciámos a
vida deles. E eles também influenciaram a nossa. Todos nós
mudámos um bocado devido à experiência que tivemos
neste projecto.»
O ano passado regressou ao voluntariado, com o início dos Grupos
de Acção Social, um projecto que visa ajudar famílias
desestruturadas a encontrarem um fio condutor. De momento está
a acompanhar um jovem casal romeno, que é já a terceira
família que apoia. Diz gostar de todos eles mas não consegue
esconder o carinho especial que nutre pela primeira família que
ajudou.
Era um casal de russos, com dois filhos, um dos quais ainda bebé.
«Eram ambos licenciados, ela, professora de história, ele,
engenheiro mecânico. Vieram para cá. Ele estava a trabalhar
numa bomba de gasolina, ela não conseguia arranjar emprego. O costume.
Afeiçoei-me muito a ela. Tinha um sentido de humor espectacular
e nós brincávamos imenso. Era como se fosse uma amiga minha.»
Pouco tempo depois, o casal resol- veu regressar à Rússia.
«Isto passou-se em Junho ou Julho do ano passado. E depois, no dia
de Natal, eles telefonaram-me... Fartámo-nos de chorar ao telefone»,
recorda, já com a lagriminha ao canto do olho.
Diz adorar todas as experiências que tem tido enquanto voluntária,
mas confessa também o carinho especial pelo Outro Lado do
Jogo. «Foi uma experiência que me abriu imenso os horizontes,
pois eu tinha 15 ou 16 anos». Já alguém dizia que
não há amor como o primeiro.
Pisou pela primeira vez o Centro Comunitário com um espírito
de aventura, «eu tinha aquela vida que toda a gente tem, em que
olhamos um bocado só para o nosso umbigo. De repente, deu-me vontade
de ajudar alguém, ser útil».
Olhando para trás, vê que foi sempre ela a ganhar muito mais.
De tal forma, que se tornou dependente. «Às vezes, quando
fico um bocado parada, não me consigo sentir bem». Espera
poder fazer voluntariado para o resto da vida, até porque, ainda
não há morfina que ajude a curar os voluntariado-dependentes...
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Joana
Câmara
Carcavelos
21 anos
Estudante de Psicologia
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