VOLUNTARIADO - experiências


Encontrámos o casal Isabel e Alexandre Nicolau em grande actividade numa garagem, emprestada ao Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos (CCPC) por uma particular, onde funciona o “Banco de Roupa”. Este espaço, localizado em frente aos Maristas de Carcavelos, é dedicado a todos os que vivem com necessidades, podendo aqui encontrar roupa, calçado, malas, entre outros artigos em segunda mão. Não se pense, no entanto, que se irá deparar com alguma espécie de “caixote de lixo”, pois rapidamente se espantará com a roupa lavada, dobrada e arrumada em prateleiras e cabides. No fundo, uma verdadeira loja, fruto do trabalho de Isabel e Alexandre.
O voluntariado só entrou na vida do casal em Março de 2007, no entanto, são a prova viva de que ser voluntário é mais uma “maneira de estar” do que uma inscrição numa organização. Se não concorda, refira-se que Isabel foi durante muitos anos, por sua iniciativa, com o marido ou com a filha levar sopa quente e comida aos sem abrigo que viviam perto das Marianas. Já Alexandre ajudou sempre quem precisa, especialmente se o trabalho passar por montagens ou transportes, pois a carrinha que tem tornou-se quase um carro comunitário.
No ano passado, esta actividade voluntariosa pareceu-lhes pouco. Isabel teve a possibilidade de ficar em casa depois de a empresa em que trabalhava fechar, e Alexandre é mecânico e trabalha por conta própria. A voluntária sempre soube que não era pessoa para ficar em casa e rapidamente “arrastou” o marido para o Centro Comunitário. Infelizmente, não escolheram o CCPC pelas melhores razões, pois só o conheceram porque a sua sobrinha caiu nas redes da toxicodependência. Apesar do seu falecimento, Isabel tem um grande carinho pela instituição. “O Centro Comunitário abriu sempre as portas à minha sobrinha e à minha sogra, que precisou muito do apoio e da força de pessoas amigas, que aqui sempre encontrou”. Os voluntários sabem que não é preciso agradecer, mas hoje sentem-se bem por poderem, de alguma forma, retribuir.

Verdadeiros Polivalentes
Quando Isabel foi ao Centro Comunitário, não escolheu a área onde trabalhar mas o destino tratou de a colocar no “Banco de Roupa”. “Foi muito engraçado porque nós sempre vendemos roupa em feiras”, contam. Talvez por isso, não se contentaram em vir duas manhãs por semana para a garagem onde funciona este serviço, tendo proposto vender artigos doados em Feiras. Desde então, têm estado na Feira do Vende Tudo, que funciona ocasionalmente no Centro, e na Feira das Velharias, montada todos os últimos domingos do mês na Praça do Peixe, em Carcavelos. “No último, fizemos mais de 500 euros”, conta Isabel, com orgulho, pois é dinheiro para os projectos do Centro. Entretanto, a assistente social do CCPC pediu ao casal para dar apoio a uma senhora angolana, sozinha em Portugal com a sua filha. No início, foi preciso ajudá-la a encontrar tudo para a casa, hoje é preciso carinho e apoio. “Ela é já uma amiga”, acrescenta Isabel.
Para Alexandre e para a sua genica, toda esta actividade ainda sabe a pouco. “Nós às vezes forçamos o Centro a dar-nos mais trabalho”, refere. Um sinal claro de que, no CCPC, estão “como peixe na água”. O que mais motiva os voluntários é, primeiro que tudo, o trabalho, de que nunca tiveram medo, mas é melhor ainda poderem com isso ajudar os outros. “Isto faz falta a muita gente que tem dificuldades”, refere Isabel, com o olhar de quem já ouviu muitas histórias de vida no “Banco de Roupa”. Talvez por isso os voluntários assumam este trabalho como uma missão a tempo inteiro. Em casa da mãe de Alexandre há um quarto que se tornou uma dispensa, onde o casal acumula tudo o que possa mais tarde vender nas Feiras. Nas horas vagas, em casa, Alexandre lava os sapatos doados e engraxa-os, enquanto Isabel trata da roupa que tem de ser lavada, passada ou cosida. Sentem-se também responsáveis pelo stock do “Banco de Roupa” e quando falta alguma coisa, como sapatos de homem ou cobertores, movem mundos e fundos para os obter.
Tudo isto não os cansa... antes pelo contrário, garantem. “Temos dado e ajudado sempre, mas a mim e aos meus nunca faltou nada”, refere Alexandre. O voluntário sabe hoje que quem dá com o coração recebe a dobrar. “Quando damos alguma coisa aparece logo outra que nos preenche. Não sei explicar...” Na verdade, nem é preciso explicações, pois para voluntário meia palavra basta.


(Cátia Silva)



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Isabel e Alexandre Nicolau

Isabel tem hoje 53 anos e Alexandre 56. Têm dois filhos, um com 31 anos e uma com 28, e são tutores da filha de 7 anos da sua sobrinha. A maior parte do tempo é dedicada ao elemento mais novo da família, porém, o casal gosta de descansar, nos fins-de-semana, em Salvaterra. Ou melhor, vão para lá dedicar-se à agricultura, pois este é claramente um casal que não sabe estar parado.