VOLUNTARIADO - experiências


"Tudo começou quando tinha 16 anos, a sua mãe adoeceu e a falta de saúde levou ao seu falecimento. Uns anos mais tarde, o pai teve problemas de estômago e ficou também ao seu cuidado. Conta que nessa altura já tinha casado e já nascera o filho que, com sete anos, mostrou não ser uma criança normal - tinha «ausências», diziam os médicos. Mais tarde foi-lhe detectado um tumor cerebral, que ficou resolvido com uma operação. Mas, o pior ainda estava para vir.
Acolheu os sogros em sua casa quando a mãe do marido partiu uma perna. E nunca mais de lá saíram... A sogra faleceu com uma paragem cardíaca e foi preciso cuidar do sogro. Foi quando entrou pela primeira vez no Centro Comunitário, há uns «18 ou 19 anos», recorda. Veio falar com a D.Carmela (que estava no lugar da Susana) para colocar o seu sogro no Centro de Dia. Mais tarde, ele veio a falecer de «um problema na próstata».
Era o início de muitas perdas.... O marido de Irene reformou-se cedo, por ser hipertenso. Mesmo assim, não se livrou de um princípio de trombose que lhe afectou o andar. Teve de adaptar-se a caminhar de canadianas, uma tarefa complicada para quem morava num primeiro andar de um prédio sem elevador. «Mas ele era totalmente autónomo», recorda Irene, até ao dia em que (vai fazer seis anos em Janeiro) « teve uma trombose e em apenas cinco dias faleceu». Então, «vi-me sozinha com o meu filho».
Uma morte que afectou de um modo particular o rapaz, que entretanto era já um homem. «Ele não exteriorizou», lamenta Irene e, talvez por isso, «passado um mês, comecei a notar que estava pior». Começa então uma odisseia por hospitais, clínicas e médicos. Todos diziam que «estava tudo em ordem», mas a TAC à cabeça do filho só foi feito dois meses depois da morte do pai, e o resultado não podia ser pior: «o tumor tinha voltado”.
Após quase um mês em hospitais foi levado para casa, onde esteve uma semana até entrar em semi-coma, conta Irene. Voltou ao hospital e regressou novamente a casa, onde esteve de terça a sábado. Nesse dia, à tarde, começaram os vómitos. «Entrei em pânico», recorda. O filho foi levado para o hospital, onde acabou por falecer uns dias depois.
«Em três meses vi-me sem os dois », desabafa, já sem conseguir conter algumas lágrimas. Foi então que olhou para si e pensou: «O que vou fazer da minha vida?». Decidiu ajudar o Centro Comunitário de Carcavelos. Irene afirma que foi assim que começou o voluntariado.... eu diria que foi uma voluntária toda a vida.
Já está no CCPC há quase dois anos, onde faz de tudo um pouco. No entanto, impôs uma condição: «ajudo em tudo aquilo que possa, menos tratar de pessoas doentes». «Já tive a minha dose», conclui. Foi assim que se tornou uma espécie de “secretária” da Susana, auxiliando-a, por exemplo, a fazer os telefonemas, a tratar de ficheiros, fotocópias, contactos, inquéritos, ordenar, arrumar, inventariar... Ainda ajuda o Centro a organizar festas, como o Arraial, Carnaval, Natal, São Martinho, etc. Há quem lhe chame «princesa», eu diria antes, que é uma fada madrinha, ajudando em “pequenas” acções fundamentais para o bom funcionamento do Centro Comunitário.
Afirma que vem para o Centro com todo o gosto, quer faça chuva ou sol. Sorri ao lembrar-se das pessoas que conheceu aqui e que, diz, «nota-se que gostam de mim». Foi assim que começou a «descomprimir» de tudo aquilo por que passou. Para além da ajuda do CCPC, fez novas amizades que a têm ajudado a começar a viver. Após uma vida inteira intoxicada por doenças e mortes, Irene apercebeu-se que, afinal, não viveu bem a sua vida. «Agora sou eu, eu e eu». Entretanto, continua no Centro a ajudar no que pode e garante que, «enquanto Deus me der saúde e eu tiver forças, estou cá».".

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Irene Silva
Carcavelos
70 anos
Doméstica

Irene Silva está quase a completar sete décadas de vida. Esteve empregada nos telefones até surgir a possibilidade de ir trabalhar para Angola. Com o 25 de Abril regressou a Portugal e, passados seis meses, foi para o Brasil. Depois foi viver para a Rebelva, na casa onde ainda hoje habita. Nos tempos livres gosta de fazer trabalhos em tricô e croché ou tratar da casa. No entanto, não dispensa a socialização, «gosto de me dar com pessoas e tenho alguns amigos», diz.