VOLUNTARIADO - experiências


Ao entrarmos em casa de Ilda Domingos percebemos de imediato que não é daquelas pessoas que ao saírem do trabalho, no final do dia, o esquecem por completo. Pelo menos, não é assim em relação ao utentes com quem trabalha no Centro Comunitário de Carcavelos (CCPC).
A prova disso cumprimenta-nos logo à entrada, com os dentes arreganhados e um aspecto ameaçador. «Ele não faz mal», diz logo Ilda, acariciando o cão que um dia um utente lhe deu, por não ter capacidade de o criar.
E, se foi com relativa facilidade que aceitou um cão que não conhecia, com a mesma leveza decidiu ser voluntária no «Esperança de Recomeçar», um projecto do CCPC que, diariamente, tenta combater a toxicodependência. Um problema actual e complicado, que não assustou Ilda: «Quando me colocaram a hipótese, disse logo que sim. Achei que era uma área que me iria dar luta».
E não se enganou. Confessa mesmo que, de início, teve de procurar a ajuda de um profissional pois «ia para casa e não me conseguia desligar dos problemas. A qualquer momento lembrava-me de várias situações que se tinham passado: Os utentes, as suas histórias, aqueles toxicodependentes em que tentamos investir mais, porque nos chamam a atenção, e que depois, logicamente, nos desiludem».
Uma situação à qual hoje já se habituou a encarar como normal. «A toxicodependência não é uma área em que vejamos tantos frutos quantos gostaríamos de ver, mas eles existem», garante. E subscreve uma frase da autoria da São (directora do CCPC): «basta conseguir que um fique bem para isso já justificar todo o esforço».
No entanto, e apesar de já estar no Esperança há cerca de dois anos e meio, há histórias que a continuam a chocar. Recorda, por exemplo, as raparigas toxicodependentes, «porque sabemos que a maioria se prostitui para conseguir dinheiro e, quem tem filhos, sabe o que isso significa».
Continua também a não se conformar com o fim de muitos jovens que um dia quiseram experimentar essa substância a que chamam droga e que nunca mais de lá saíram: a morte. «Nós temos sempre a esperança que eles se consigam curar».
Mas, se nem tudo são rosas, também nem tudo são espinhos. «Eles têm pequenos gestos para connosco que compensam tudo», garante. Nos dois dias por semana e mais um sábado por mês que passa na sala do Esperança de Recomeçar, Ilda já viveu muita coisa. Escolher o que foi mais marcante é talvez complicado, no entanto, recorda-se de algumas situações que a fazem sorrir.
«Um dia estávamos na sala e, em conversa, um utente referiu-se a mim como “ela”. Houve logo um outro que lhe respondeu: “julgas que estás a falar com quem? Vê lá como falas com a senhora». Uma defesa que não esperava, após uma referência que não ofendeu a voluntária. «Eles próprios protegem-nos muito», diz.
Ilda Domingues conta ainda o encontro que teve com um utente há poucas semanas. «Ele tinha feito anos no dia anterior e no Esperança festejamos sempre com um bolo. Eu não sabia do aniversário e por isso não apareci. No dia seguinte veio ter comigo muito triste: “Ontem fiz anos e a D.Ilda não veio comer uma fatia do meu bolo”». Nesse momento sentiu que a equipa do Esperança faz parte da família destes jovens, pois a maior parte está em ruptura com a sua própria família.
Talvez sejam estas pequenas recompensas que levam Ilda a afirmar, com toda a firmeza: «estou no Esperança para ficar». Até porque, garante, «recebo muito mais do que dou». Agora, quer aprender mais sobre a toxicodependência e realizar outras acções nesta área. Para um futuro próximo, tem já algumas ideias bem arrojadas: ir um ano para um outro país ajudar os mais carenciados.
(Cátia Silva)

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Ilda Domingos
Carcavelos
51anos
Reformada


Ilda Domingues tem 51 anos. Reformou-se há quase três anos, quando a empresa para a qual trabalhava lhe ofereceu a reforma antecipada. E pensou, «agora vou fazer o que eu gosto». E faz. Com dois filhos maiores, uma com 27 anos e um rapaz com 22, decidiu dedicar-se a si e aos outros. Inscreveu-se no atelier de Estanho e Pintura do CCPC: «algo que eu já antes gostava de fazer mas faltava tempo e dinheiro»; e tornou-se pela primeira vez voluntária, através do projecto «Esperança de Recomeçar».