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Este
mês o Voluntariado na Primeira Pessoa foi conhecer um voluntário
igual a tantos outros, que dá sem esperar receber nada, mas que,
ao mesmo tempo, é especial, porque dá mais do que a grande
maioria consegue dar. Um esforço sobre-humano digno de um super-voluntário
Numa segunda-feira,
véspera de Carnaval, o Ágora encontrou-se com o Sr. Francisco,
como é conhecido, no seu cantinho do Centro Comunitário
de Carcavelos: O Espaço Sénior. É aqui que conhece
quase toda a gente e é a estas pessoas que se dá voluntariamente.
No momento do nosso encontro, falava com a Dr.ª Susana, responsável
por esta área, sobre um senhor que viu na rua mas que descobriu
então que está referenciado e que vive numa habitação
social.
Uma preocupação, claramente voluntariosa, que ao longo da
entrevista vamos percebendo que sai naturalmente da existência de
Francisco Almeida, que gosta pouco de falar "das suas coisas",
como diz de forma envergonhada, preferindo agir sem dizer nem pedir nada
a ninguém. Atitudes que, com certeza, toma há já
muito tempo, mas que só ganhou a designação de voluntariado
quando veio para o Centro Comunitário de Carcavelos. "Frequento
a Paróquia desde o tempo do Sr. Padre Aleixo e já tinha
ouvido relatos de voluntariado e conhecia um pouco a actividade do Centro",
recorda, confessando porém que sabia muito pouco. Em Setembro de
2006, veio inscrever-se como voluntário, sem conseguir explicar
o porquê. "Há sempre uma altura na vida em que achamos
que devíamos fazer um pouco mais do que o que fazemos". Será
apelo, será chamamento? Chamemos-lhe o que quisermos, mas a verdade
é que a comunidade de Carcavelos ganhou um voluntário.
O Espaço Sénior
Quando chegou ao Centro Comunitário de Carcavelos inscreveu-se
para trabalhar, da mesma forma que um militar se alista nas Forças
Armadas: para o que der e vier. Um espírito de missão e
de entrega que o torna um voluntário especial, extremamente profissional
e empenhado. Como tinha algumas horas livres durante o dia, que conseguiu
"roubar" aos três filhos e à empresa familiar que
detém - onde se dedica à área do tijolo, do cimento
e da areia, conta, entre risos, mostrando que nada tem a ver com a área
social a que se dedica no Centro - resolveu ajudar os outros. Acabou por
ficar no Espaço Sénior, onde faz o acompanhamento e o transporte
de pessoas de mais idade. A maioria dos voluntários desta área
responsabiliza-se apenas por uma pessoa, mas o Sr. Francisco, como um
verdadeiro super-voluntário, encarrega-se de quatro.
A primeira experiência foi com a D. Isilda, que precisava de acompanhamento
para ir ao Hospital de Cascais, onde tinha uma consulta marcada. Porém,
não tinha feito os exames, pelo que perdeu a consulta. E foi assim
que, sem ser precisa qualquer preparação, o voluntário
percebeu o tipo de apoio que esta senhora precisava. "Uns dias depois
fui para ao hospital e estive duas horas à espera da directora
do serviço para marcar os exames", conta. E conseguiu. "São
passos que para nós são básicos e simples, mas que
tendo alguma idade parecem gigantescos". É esta ajuda que
Francisco continua a dar à D. Isilda, entre idas ao hospital e
marcações de exames e consultas.
Depois surgiu a possibilidade de fazer visitas domiciliárias e
acompanhamento a um casal, que por motivos de saúde não
tem grande mobilidade e acaba por estar cingido ao espaço da sua
casa. "Vou lá fazer umas visitinhas, duas ou três vezes
por semana, durante uma ou duas horas, para lhes fazer um bocado de companhia",
conta. Consegue ainda tempo livre, para às terças e sextas-feiras
ir buscar a D. Maria José para a aula de ginástica no Centro,
e depois leva-a novamente a casa. Porém, e como se tudo isto não
fosse já muito, está empenhado em ajudar a Drª. Susana
no caso complicado de um senhor. E tudo isto é feito com o carro
de Francisco a servir de meio de transporte, sendo os custos suportados
pelo voluntário, por sua própria vontade. Entre risos e brincadeiras
"É muito gratificante o que faço", conta, "e
digo que gratificante quando as pessoas nos sorriem, quando vemos que
ficam alegres e quando passam por nós e nos falam e até
brincam". Para exemplificar melhor do que fala o voluntário,
é preciso contar que minutos antes a D. Isilda tinha passado por
nós e começado a falar com o Sr. Francisco. Entre brincadeiras
sobre danças e Carnavais, disse baixinho ao Ágora: "não
se pode dizer muito isto, mas ele é muito nosso amigo". E
em jeito de resposta diz logo o voluntário: "D. Isilda, veja
lá o que diz. Olhe que amanhã sou eu que a vou levar à
consulta".
Conversas animadas que mantém com as várias pessoas que
acompanha, e que naturalmente mudam consoante os interesses e as afinidades.
Com o casal de idosos que costuma visitar, tem aprendido muito sobre a
vida, e com as senhoras tem especialmente partilhado o seu gosto pela
culinária. Porém, já alguém dizia que somos
todos diferentes e todos iguais. E Francisco hoje sabe isso: "basicamente
o que todos querem é um bocadinho de carinho, de ternura, de atenção".
Necessidades que se sobrepõem às doenças e que são
as mesmas que sentem as pessoas carenciadas que o voluntário serviu
na Ceia de Natal do Centro Comunitário, onde participou no ano
passado pela primeira vez.
Perante todas estas experiências, acrescenta: "se temos possibilidade
de dar, não custa nada". Até porque, confessa, já
se tornou quase viciado em voluntariado. "É um vício
bom. Se há dias em que não tenho nada para fazer em termos
de apoio aqui no Centro... falta qualquer coisa". O que será?
Provavelmente o brilhozinho nos olhos que Francisco diz ter visto nas
crianças com quem esteve na Ceia de Natal e que também encontra
agora nos mais idosos. Ou seja, a resposta que recebe por aquilo que dá:
a alegria dos outros e uma nova experiência de vida. "Mudamos
um bocado a nossa visão sobre o mundo. Os nossos problemas às
vezes são coisas muito pequenas se compararmos com o que se passa
com outros".
E eram estes os motivos que o voluntário apresentava ao Ágora
para se querer manter no Centro Comunitário e na área sénior,
quando, de repente, surge uma senhora a pedir-lhe ajuda. E tal como no
início encontrámos o Sr. Francisco com a Susana a querer
ajudar um desconhecido, agora no final da nossa conversa o voluntário
sai a correr para mudar o pneu de um carro de uma senhora. Ressalve-se
que, como se costuma dizer, "chovia a cântaros" e que
o pneu a ser mudado estava metido dentro de uma grande poça de
água, onde o voluntário não hesitou em meter os pés.
Só esperamos que o escudo do nosso super-voluntário seja
suficientemente grande para não se constipar.
(Cátia Silva)
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Francisco
Almeida
45 anos
Casado,
ajuda a tomar conta de três filhos já crescidos, mas que
ainda dão muito trabalho: o Diogo, de 9 anos, o André,
de 17 anos, e a Cátia, com 21 anos. Os dias são passados
entre o apoio aos filhos, a gestão da empresa familiar que dirige,
o voluntariado e a literatura, a que apenas dedica uma parte da noite.
"Gosto de poesia e gosto muito dos nossos clássicos, como
o Eça de Queiroz ou o Fernando Pessoa, bem como alguns contemporâneos".
Quando lhe sobra algum tempo, aproveita para dar um saltinho à
ópera ou ao ballet. |