VOLUNTARIADO - experiências


"Professora Francisca, quando é que se reforma para vir cá?", perguntava sempre o Agostinho, responsável pela animação dos idosos e das crianças do Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos (CCPC). A resposta tardou a chegar mas depois de mais de vinte anos a trabalhar na escola primária da Rebelva, a professora aposentou-se e em poucos dias estava no Centro, desta vez para ocupar o lugar de voluntária.
Uma transferência que nada custou a Francisca Melo. "É quase a mesma coisa, não senti grande diferença", garante. A maioria dos leitores pode até pensar que poucas semelhanças devem existir entre um Centro Comunitário e uma Escola Primária mas as igualdades de que fala a professora baseiam-se essencialmente no trabalho que desempenha.
Duas vezes por semana junta-se aos idosos mais activos do CCPC para dedicar algumas horas à arte. Logo à segunda-feira, "alunos" e "professora" realizam verdadeiras sessões de corte e costura. Não se pense, no entanto, que passam a tarde na calhandrice, pois o tempo é de criatividade e trabalhos manuais. No fim de cada mês, fica pronto o resultado: três fatos para apresentar a concurso num baile mensal. "Todos adoram", conta a professora, "mais parece que estamos a fazer uma importante passagem de modelos".
À quarta-feira o mesmo grupo volta a reunir-se, desta vez para fazer teatro. Sem grandes pressas nem obrigações, terminam os ensaios quando podem e, nessa altura, apresentam o espectáculo em diversas escolas. Uma acção que virou tradição, uma vez que é realizada há já longos anos.
Sem precisar datas, Francisca Melo recorda que tinha começado a leccionar na Rebelva há pouco tempo... "O primeiro contacto entre o Centro e a minha escola deu-se pouco depois do CCPC abrir", recorda, quando surgiu o ATL (Actividades para os Tempos Livres) e os alunos os passaram a frequentar.
No que diz respeito aos idosos, a ligação começou pouco tempo depois, por iniciativa da própria voluntária. "Todos os anos a escola tinha de desenvolver um projecto de trabalho", relembra, "e aí pensei em fazer alguma acção com os mais idosos". Assim, no início do ano lectivo era definida uma temática sobre a qual as miúdos e os mais idoso se debruçavam. "Lembro-me que uma vez falámos do "Prazer de Ler" e os idosos foram à escola transmitir aos mais novos algumas histórias tradicionais". Uma espécie de tradição que ainda hoje se cumpre religiosamente.
É neste sentido que Francisca Melo fala da facilidade de passar para o Centro pois, no fundo, houve apenas uma mudança de lado. Hoje, a professora treina as pessoas mais sabedoras do CCPC, juntamente com o Agostinho, e com elas vai às escolas passar saberes que nunca se poderão encontrar em livros.
Um voluntariado que encara como sendo um verdadeiro emprego. "Sinto a obrigação de não faltar e só o faço por razões muito especiais", diz, ao mesmo tempo que recorda, entre risos, o "raspanete" que uma vez ouviu de uma das idosas por ter faltado. Uma atitude que Francisca Melo interpretou como sinal de carinho. "O voluntariado ganha importância por eu ver que os idosos estão sempre desejosos que eu chegue".
E assim se resume rapidamente a história de um voluntariado que a professora Francisca chamaria de "citadino". "Trabalhei durante muitos anos na província e, na altura, a professora e o padre eram as pessoas a quem se pedia ajuda para tudo", conta. E foi realmente aí que começou o seu voluntariado, numa ajuda porta-a-porta. "Na cidade as pessoas têm de ser canalizadas para estes centros porque não conhecemos ninguém, nem os nossos vizinhos", lamenta.
Hoje diz que está disposta a continuar de mangas arregaçadas e deixa um conselho útil em tempos de crise: "temos de ultrapassar os problemas do dia-a-dia, ajudando em tudo aquilo que pudermos".


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Francisca Melo
Carcavelos
54 anos
Reformada

Francisca Melo, mais conhecida por professora Francisca, tem hoje 54 anos. Durante mais de três décadas ensinou crianças. Uma profissão que não escolheu mas para a qual reconhece ter nascido. "Os meus pais obrigaram-me a ir estudar para o magistrado pois, na altura, era um futuro assegurado. Eu só chorava", confessa, agora que se ri da situação. Reformada há quatro anos, divide os seus dias entre a hidroginástica, logo de manhãzinha; o passeio pelo paredão da praia, com duas amigas; e as tardes passadas ora no Centro, ora no cinema, ora a cuidar da netinha de dois anos, ora a fazer croché, ora a tratar da casa e do jardim... Dias cheios que não parecem cansar Francisca Melo, que, para se autodefinir, diz simplesmente: "não sou pessoa de estar em casa".