|
Tudo
começou há mais de qua-renta anos, mas apenas há
um ano Fernando José Fradique começou a perceber que tudo
o que fazia era voluntariado. Via o voluntário como alguém
que faz coisas certas, em dias certos, a horas certas, conta. Foi
no Centro que aprendeu que é muito mais do que isso. Levei
tempo a consciencializar-me do voluntariado, pois o que faço é
mais militância.
Tinha então 17 ou 18 anos quando numas férias não
tinha nada para fazer. Resolveu então inscrever-se num curso de
animador de campos de férias. Passando da teoria à prática,
ficou com um grupo de crianças, uma das quais invisual. Lembro-me
bem que o campo era na zona de Sintra e recordo-me de descer a serra a
correr, na zona do Castelo, com o invisual agarrado ao meu ombro. Eu ia
dizendo, ali há um degrau, ali há um obstáculo, e
ele ia correndo. Era a confiança total. Marcou-me muito.
Depois descobre-se cedo que o contacto com os outros é ex-tremamente
enriquecedor, aprende-se imenso. E foi por isso que nunca mais deixou
de ser completamente voluntário, mesmo depois de casar. Tínhamos
feito CPM antes de casar e depois convidaram-nos para fazer, em jeito
de desafio. Disseram-nos: falam muito mas não fazem nada.
Resolveram fazer, inscrevendo-se para dar formação de noivos
e conselhos a casais. Ainda hoje continuam com este voluntariado, apesar
de agora as sessões pré-casamento serem de apenas um dia.
Quando eram sessões mais prolongadas, era muito giro porque
mais tarde encontrávamos os casais e estes vinham fazer-nos confidências.
Ainda enquanto casal, Lisete e Fernando José Fradique inserem-se
nas Equipas de Nossa Senhora, um movimento de casais com um espírito
activo muito próprio.
A seguir ao casamento, vieram os filhos e na idade da adolescência,
Fernando José Fradique e Lisete sentiram que pertencendo a um grupo
de jovens poderiam perceber melhor o seu modo de estar. Foi assim que,
com cerca de 30 anos, o casal começou a reunir-se semanalmente
com jovens, para, à boa maneira dos salões e cafés
de antigamente, conversarem e discutirem. Era um ponto de encontro
e de reflexão. Hoje ainda os encontramos e eles ficaram nossos
amigos.
A chegada do Centro
Foi há precisamente 25 anos que o Centro Comunitário de
Carcavelos abriu as suas portas. Porém, tal só foi possível
graças a um bom trabalho de recuperação da casa,
particularmente da cozinha, conta-nos o voluntário, e da sua adaptação
para acolher o Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos.
Estas obras estiveram a cargo de Fernando José Fradique. O mesmo
aconteceu uns anos mais tarde, quando foi construído o novo pavilhão
do Centro. E foi agora, há ano e meio, novamente com a coincidência
das obras e cons-truções, que Fernando José Fradique
aceitou o convite para um lugar na direcção do Centro Comunitário,
ao mesmo tempo que pensa nas obras de remodelação da Igreja.
Todo este voluntariado, apesar de parecer ter sempre surgido na sua vida
espontaneamente, foi, na verdade, procurado, revela. Temos de procurar
as situações, senão elas não acontecem.
E é com este espírito que vê o voluntariado. Acredito
que é nas pequenas coisas que se muda a sociedade, é com
elas que se fazem coisas grandes, e somos nós (leia-se: a sociedade)
que as temos de fazer. Fernando José Fradique já está
neste caminho pela mudança das mentalidades há vários
anos, e trabalha espe-cialmente a nível local, pois considera que
é na comunidade que se deve apostar primeiro.
Quanto a projectos para o futuro, tem os mais imediatos ligados ao CCPC.
Pensando mais além, diz não ter nada já definido,
mas não considera a hipótese de fazer voluntariado junto
dos mais novos. Há coisas que têm fases na vida, hoje
não faz sentido estar com crianças. Foi por isso que
Fernando José Fradique começou ainda novo pelos mais novos,
aumentou depois para os jovens, e actualmente dedica-se a coisas
de adultos, dando aos outros a experiência que tem. Porém,
lamenta, gostava de ter mais tempo disponível.
(Cátia
Silva)
Home |
|
Fernando
José Fradique
60 anos
e uma vida cheia com os seus dois filhos e dois netos. Trabalha na gestão
de obras, e nos tempos livres adopta o lado oposto, fazendo bricolage.
Já recuperou móveis e duas casas, e até tem uma
oficina. Nas horas vagas gosta de ler e ouvir música. |