VOLUNTARIADO - experiências


A Filipa Lourenço é voluntária no Centro desde Março de 2001, e nunca tinha feito voluntariado. Conta que um dia estava no cinema e viu que era o ano internacional do voluntariado e isso fê-la pensar que podia fazer mais coisas na sua vida. Foi à Internet, inseriu “associações de voluntariado”, e voilá, foi parar ao Centro Comunitário. Nessa altura o Centro estava a precisar de voluntários para o Projecto “Esperança de Recomeçar”. A Filipa só tinha o fim-de-semana livre, e “nem a propósito”, comenta, eram precisas pessoas para o Sábado.
Foi assim que a Filipa veio parar ao Centro e à area da toxicodependência. Hoje confessa que gosta desta área, porque considera que a toxicodependência é “o maior problema de hoje, de onde deriva muita coisa, como a SIDA e a marginalidade. Este é o ponto de partida de muitos problemas sociais e é também o ponto de partida para a mudança”.
Era uma realidade que já conhecia, mas conta que da primeira vez que foi trabalhar ficou um bocado chocada. “Quando cheguei a casa chorei, chorei, chorei. É muito fácil ver ou falar, mas ver de perto e sentir é muito diferente”. Chocou-a o modo natural como os toxicodependentes descreveram a vida que levam, especialmente o facto de não terem casa. “Se não têm casa não têm onde tomar banho, não têm roupa lavada, não têm cobertores...”. Passado uns tempos o choque passou e a Filipa ficou. Hoje diz que se a sua vida permitir, nunca vai deixar de fazer voluntariado.
Está no Esperança um ou dois Sábados por mês, entre as 14h30 e as 16h30. Nessas duas horas distribui um lanche, fornecido pelo Banco Alimentar, que para muitos é a única refeição desse fim-de-semana. Quem quiser pode lá ficar as duas horas, onde há tempo para conversar, ouvir música e até brincar, sim, porque os adultos também devem brincar. Embora as duas horas passem num instante e seja realmente muito pouco tempo, a Filipa recorda o que um dia um toxicodependente lhe disse: “Vocês não sabem o bem que nos fazem, nem que seja só por uma ou duas horas. É muito bom saber que alguém gosta de nós”.
“Tudo o que eles precisam é de conversar, precisam de um momento para eles”. Algo tão simples que qualquer pessoa pode fazer. São estas pequenas coisas que fazem os voluntários. Muitas pessoas pensam que não se deve ajudar os toxicodependentes porque eles escolheram meter-se na droga e que, por isso, cabe-lhes a saída desse mundo. Convivendo com os toxicodependentes a Filipa percebeu que não é assim tão fácil. “Fazer a desintoxicação é simples, o pior é sair do Centro de Recuperação, onde terá de enfrentar a exclusão social, o não ter emprego, não ter dinheiro, não ter uma casa, não ter roupa,..., não ter nada. Para quem está por fora deste problema é muito fácil falar, mas só quem está por dentro é que sabe o que custa”, afirma. É por isso que diz que o voluntariado no Centro mudou muito a sua vida.“A realidade torna-se mais presente”. Conta que agora olha para a vida de uma outra maneira, sabe que há pessoas no mundo que precisam de ajuda e que normalmente nunca nos apercebemos disso. É para isso que servem os voluntários, para fazerem essas pequeninas coisas. A Filipa não se importa de perder algum tempo a ajudar outras pessoas, e “se todos pensassem assim o mundo estaria um bocado melhor. Infelizmente, isso não acontece”.

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  Filipa Lourenço
Lisboa
24 anos


coordenadora de materiais