|
Maria Fernanda Robalo pode ser quase descrita como uma voluntária
muito pouco voluntária. Por isto não se entenda que não
é voluntariosa (que o é, e muito), mas que tem pouca consciência
do que é fazer voluntariado, fazendo tudo, simplesmente, por amor.
Como primeiro exemplo, pode-se falar do dia em que o Ágora marcou
a entrevista com a voluntária. Tinha ensaio do coro, onde está
desde a formação, mas foi mais cedo para dar uma arrumação
no material do grupo que está guardado na arrecadação.
Para além desta ajuda voluntária, é também
a tesoureira. É isto voluntariado? «Não», diz
entre risos, «até porque todos pagamos para estar no coro».
Foi com esta mesma naturalidade que Maria Fernanda Robalo chegou ao voluntariado
no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos (CCPC).
Há mais de vinte anos vim para o Centro aprender arraiolos,
porque estava a ultrapassar um período mau, precisava de arejar
a cabeça. Pouco tempo depois o professor teve de se retirar,
e Maria Fernanda substituiu-o como professora. Não fosse ter preenchido
na altura a ficha de voluntária, e provavelmente continuaria a
não se definir como tal. Porém, e para todos os efeitos,
é como voluntária que todas as quartas-feiras de manhã
ensina arraiolos a 16 alunos (embora nem todos apareçam sempre).
Eu não me sinto professora, sou só uma pessoa que
aprendeu há mais tempo a fazer arraiolos e por isso posso transmitir.
Além do mais, confessa, a aula de arraiolos acabou por se tornar
principalmente num espaço de reunião de amigas. É
como se fossemos uma família, somos amigas que em vez de ficarmos
em casa vimos para o Centro. E instituímos que há sempre
um bolinho e chá. De vez em quando vamos almoçar juntas,
e mesmo as pessoas que agora não podem vir às aulas vão
aparecendo.
A maioria, conta, foi para os arraiolos à procura de um refúgio
para os seus problemas, e ali encontrou a paz que precisava. Foi o que
também aconteceu a Maria Fernanda Robalo, que entrou para as aulas
de arraiolos para sair um pouco de casa, pois o seu filho mais novo, hoje
com 34 anos, nasceu com uma deficiência profunda que o tornou eter-namente
dependente. Hoje a voluntária encara melhor este fado. Sem
contactarmos com as outras pessoas olhamos muito para nós, e é
normal acharmos que o nosso problema é muito grande. Vendo outras
coisas, percebemos que às vezes não devemos falar.
Para além do Centro Comunitário, tem também ouvido
muitas histórias na Associação dos Deficientes Autistas,
onde o seu filho está internado há 14 anos. Em 2003 Maria
Fernanda Robalo decidiu tornar-se também aí voluntária,
onde ajuda no serviço de lavandaria, principalmente cosendo as
roupas dos utentes. Um trabalho que fez também para o Banco de
Roupa do CCPC, mas que confessa não ser do seu agrado. Se
gostasse não era sacrifício, era para meu prazer,
esclarece, mostrando que é com amor que dá aos outros um
bocado de si.
Gosto muito das coisas vo-luntárias, diz, até
porque não tenho necessidade absoluta do dinheiro para sobreviver
e assim dou um bocadinho. Na balança de todos estes anos
de voluntariado, pesa o que deu ao Centro Comunitário, aos seus
alunos, aos autistas e a tantas outras pessoas a quem as roupas que coseu
serviram na perfeição. No outro lado da balança está
aquilo que recebeu. É de parte a parte, tenho dado e recebido
muito. Há dias em que de manhã está frio ou a chover
e não é aos saltos que vou para o Centro, mas depois sinto-me
bem porque as pessoas acabam por me fazer esquecer, e por serem muito
carinhosas umas para as outras e para comigo.
Neste momento estou com o tempo muito ocupado, senão faria
ainda mais coisas, revela. Quem não acredita que a vo-luntária
pode ter falta de tempo, recorde-se que passa sempre um dia com o filho,
outro dia nas aulas de arraiolos e nas artes decorativas, mais algumas
tardes a coser roupa, duas noites no coro do Centro e uma no da Paróquia
de Carcavelos, e que ainda tem de fazer o trabalho doméstico. Sobra
apenas tempo para pensar no que vai fazer quando tiver mais tempo: gostava
de estar mais com idosos, tenho impressão que as pessoas mais velhas
gostam de mim e eu gosto delas.
(Cátia Silva) Home
|
|
Fernanda
Robalo
Carcavelos
64 anos
Doméstica Casada, tem três filhos já de tenra idade:
duas de 37 e 39 anos e um de 34. Formou-se em farmácia, mas a
vida fez com que tivesse de desistir completamente de exercer a profissão.
Entretanto foi ocupando o pouco tempo livre com uma actividade que adora:
trabalhos manuais, particularmente a pintura em porcelana, que, confessa,
lhe está «a encher as medidas». Também gosta
muito de ler, mas o tempo que dedica principalmente aos outros faz com
que raramente consiga passar do recorde de uma página por noite. |