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«Tendo
nascido e vivido em Moçambique até aos oito anos de idade,
não espanta que aos 37 anos Henrique Aboim tenha decidido apanhar
o avião e partir para reconhecer a sua terra-Natal. O que ninguém
esperaria é que regressasse desta viagem uma pessoa diferente.
O gosto pelo dar sem esperar receber nada em troca provavelmente já
lhe corria no sangue ou no coração, mas o verdadeiro
desejo de ajudar só começou neste regresso a casa.
«Tive um guia, o Afonso, que acabou por tornar-se um amigo especial»,
conta. Foi com ele que conheceu os locais turísticos obrigatórios,
mas também com ele passeou pelos bairros degradados da cidade.
«Estive em sítios onde as crianças dormiam em cima
da mesa da cozinha e os estudantes usavam ainda os livros do tempo da
colonização portuguesa».
«Quando cheguei cá vinha bastante tocado por tudo o que vi»,
conta, revelando que foi então que decidiu arregaçar as
mangas. O seu primeiro instinto foi querer ir para Moçambique,
mas diversos compromissos ligavam-no a Portugal. Porque não tentar
então qualquer coisa por aqui?, pensou. Sendo um profissional da
informática, foi através do computador que pesquisou um
local para se inscrever como voluntário. De imediato apareceu o
Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, que tinha
a vantagem de ficar perto do local onde mora.
Numa primeira entrevista explicou os seus objectivos, que se mantêm
até hoje: «quero dar às pessoas o que elas quiserem
aprender». Acompanhar, entreter ou ajudar pessoas em questões
corriqueiras nunca foi o seu desejo, pois definiu desde logo que tendo
tido a possibilidade de estudar informática, deveria passar essa
sabedoria a quem não a pôde ter. «A minha ideia é
dar às pessoas um conhecimento que lhes é completamente
estranho, pois os computadores são ainda um mundo ao qual nem todos
têm acesso».
Foi assim que há dois meses se tornou professor de informática
de um grupo de sete pessoas carenciadas, numa estreia como voluntário.
«Muitas das pessoas que trabalham na minha área não
dão um passo a não ser por dinheiro. Não é
esse o meu feitio. Como voluntariado estou a tentar passar esta minha
maneira de estar na vida à prática». Acima de tudo
o que quer, resume, é sentir-se útil. E é, que o
digam os seus alunos.
Todos os sábados de manhã um grupo de cinco mais resistente
não perde por nada deste mundo a aula semanal. «Há
alguns que nunca faltam e que são uma senhora, três jovens
peruanas e um rapaz angolano». Uma diversidade cultural que não
preocupa o voluntário. «Nunca tive dificuldade em criar empatia
com qualquer tipo de pessoas», conta, confessando que muitas vezes
até prefere estes alunos aos muitos licenciados a quem dá
formação. «Há neles uma dedicação,
uma honestidade e uma vontade de aprender que muitas vezes eu não
vejo nas pessoas que pagam para aprender».
Apesar de nenhum dos alunos ter computador em casa, o desejo de aprender
é muito grande, mesmo que não existam de imediato perspectivas
para o futuro. «Eles estão sempre in-teressadíssimos»,
conta o professor, acrescentando que as perguntas são uma con-stante.«Por
vezes é como se fossem crianças na idade dos porquê»,
graceja ao mesmo tempo que explica algumas das dificuldades, como, por
exemplo, o facto de muitos serem analfabetos e não perceberam a
linguagem informática. Porém, o desejo de aprender fala
sempre mais alto e hoje já podemos vê-los a navegar na Internet,
a trocarem e-mails ou mesmo a escreverem cartas.
No final destas manhãs de sábado, Henrique Aboim sente que
aprendeu mais com os alunos do que eles aprenderam com o professor. «Eu
saio a ganhar, porque estas pessoas têm ainda muitos valores que
a maioria das pessoas já perdeu», conta. Ensinamentos que
fazem com que o voluntário queira continuar, até que o tempo
lhe roube toda a disponibilidade».
(Cátia Silva) Home
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Henrqiue
Aboim
38 anos
Paço D'Arcos
Entre os seus gostos pessoais destaca o desporto, o cinema e as
viagens. Porém, trabalhar não é para si uma obrigação
e considera-se mesmo um privilegiado por gerir uma equipa de informáticos
de uma multinacional. O voluntariado surgiu como o complemento que necessitava
para a sua vida.
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