VOLUNTARIADO - experiências

Entrei no Centro Comunitário de Carcavelos numa tarde de um normal dia de semana. As crianças do ATL (Actividades de Tempos Livres) jogavam à bola no campo de futebol. Ouviam-se os gritos, as risadas e o barulho dos pés a baterem no chão numa furiosa correria para o golo. Ao olhar com maior atenção, consegui distinguir o Dennis entre os mais novos. Chamei-o para esta entrevista e, como qualquer outra criança, não gostou muito da ideia. «É que eu não falo muito bem o português», justificou-se.
Depois de uma breve conversa, (porque a brincadeira o esperava no pátio do Centro) percebi que Dennis é um exemplo raro: O adulto que conserva o verdadeiro espírito de criança. Sabe exactamente o que quer para si, mas brinca como se tivesse 10 anos. Pode-se dizer que esta é a verdadeira vantagem deste voluntário que, embora seja um rapaz de poucas palavras, é a brincar que dá o seu contributo para construir uma sociedade melhor.
Começou a ser voluntário por obrigação. «Tinha de prestar 50 horas de serviço comunitário para um projecto da minha escola», conta. E assim, foi parar ao AJAC, onde passou cerca de seis semanas com os jovens artesãos do Centro Comunitário. Nessa altura, explica, «só queria aprender alguma coisa e viver uma experiência diferente».
No entanto, quando o tempo de serviço comunitário obrigatório terminou, surgiu a possibilidade de participar no "Outro Lado do Jogo", um projecto dedicado às crianças carenciadas do antigo Bairro das Marianas. Nunca vai esquecer esta experiência, que confessa ter sido a que mais gostou. «O maravilhoso era a atmosfera que se vivia naqueles sábados de manhã, em que os monitores tentavam ajudar aquelas crianças e, quando surgia algum problema, estava sempre alguém para dar uma mãozinha. Havia uma verdadeira cooperação entre os monitores e as crianças», relata Dennis.
Cerca de três meses depois, o projecto terminou. O voluntário continuou a vir ao Centro, embora já não de uma forma regular. Durante o Verão, aparecia de vez em quando para brincar com as crianças do Porta Aberta, um programa de ocupação dos mais novos, nos meses em que as escolas fecham e estes não têm onde ficar.
Após um curto período de afastamento, Dennis regressou ao Centro. «Perguntei o que poderia vir fazer e falaram-me do ATL», uma actividade de ocupação para as crianças, desde que saem da escola até que os pais as venham buscar. E assim foi...
«Quando vim pela primeira vez, achei que iria encontrar crianças caladinhas e sossegadas mas descobri que algumas eram muito violentas», uma situação contrária à que estava habituado n’ O Outro Lado do Jogo, conta Dennis. E, continua, «no ATL eu não tenho autoridade nem responsabilidade para dizer nada. Estas crianças têm os seus próprios pais - quem sou eu para dizer o que devem ou não fazer?».
Uma responsabilização pequena que faz com que, no ATL, Dennis se defina como «um miúdo que procura apenas alguém com quem brincar». Uma pele de criança que veste sem qualquer dificuldade. E, assim, entre o jogo das es- condidas e uma partida de futebol, Dennis vai dando uns toques na sua educação. «Eu tento sempre fazer com que as coisas sejam justas. Acabo com as bulhas e procuro dar o bom exemplo», diz. Uma estratégia que poucos adultos conseguem aplicar com a mesma subtileza.
Assim se completam quase três anos de voluntariado dedicado ao futuro do nosso Planeta: as crianças. Porquê? «Talvez por eu ser ainda tão criança», responde inocentemente. No entanto, sente que amadureceu e que a experiência com os mais novos o ajudou a crescer. E aprendeu: «Ao ajudarmos os outros ajudamo-nos a nós próprios. Venho ao Centro Comunitário pelas crianças mas, na verdade, porque é bom para mim e me faz sentir muito bem».
Para o seu próprio futuro, demarcou já alguns caminhos: em Setembro parte para Wales, onde vai estudar Engenharia Electrónica durante dois anos, depois «talvez vá para o Brasil». Quanto ao voluntariado, não sabe ainda o que o destino lhe reserva mas garante «já faz parte da minha vida».
(Cátia Silva)

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Denis Godinho
Carcavelos
20 anos
Estudante


Nasceu na África do Sul, país de onde guarda a herança de um inglês perfeito e um português ainda defeituoso. Veio para Portugal com 15 anos e começou a estudar no St. Julians School. Terminou o liceu no ano 2000 e, desde então, tem-se dedicado à electrónica. Primeiro montou um pequeno negócio, depois, decidiu que precisava de estudar mais. Hoje, é autodidacta mas está já a fazer as malas para estudar Engenharia Electrónica em Wales. Para o futuro, sonha ingressar no meio artístico e, quem sabe, fazer alguma coisa no mundo do teatro.