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Muitas
vezes, quando olhamos para quadros de Picasso, de Klimt e de outros grandes
pintores, percebemos facilmente o que é nascer pre-destinado para
uma vocação. Foi o que aconteceu a Cristina Ribeiro, que
teve a felicidade de sentir em pequena o que queria ser em grande: voluntária.
Não sendo esta uma profissão (infelizmente para ela e para
muitos voluntários), Cristina pensou em seguir medicina e percorrer
o mundo com os Médicos Sem Fronteiras, com a AMI ou com outra Organização
Não Governamental.
O destino não quis assim, e a matemática manteve-a por terras
lusitanas. Acabou por estudar direito, mas o gosto pelo humanitário
levou-a ainda no tempo da Faculdade a inserir-se num grupo de jovens que
apoiava hospitais e instituições prisionais. A primeira
experiência que teve foi no Hospital D. Estefânia, onde entretinha
as crianças durante a tarde. Foi óptimo, gostei muito.
Não me fez impressão pois quase não se dava por estarem
doentes. Mais complicado, confessa, foi o que depois viu e viveu
no Hospital Santa Maria, onde ajudava doentes que tinham sofrido acidentes
car-diovasculares e acidentes graves. Eram pessoas que estavam no
pós-operatório ou que tinham caído ou tinham tido
um acidente e ficavam paralisados. Era mais complicado.
Já com o canudo na mão, Cristina entrou como voluntária
para a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima),
onde prestava apoio jurídico. Porém, limitava-se mais a
ouvir e encaminhar as pessoas para os serviços e entidades competentes.
Foi no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos que
começou a fazer um trabalho mais perso-nalizado e bem mais familiar.
Tudo começou no início deste ano, quando a voluntária
já tinha deixado a APAV há seis meses, por in-compatibilidade
de horário, e sentiu necessidade de voltar ao voluntariado. Fui
à Internet e dei com o site do Centro Comunitário de Carcavelos
(www.centroco-munitario.net). Dizia lá: Se queres ser voluntária
inscreve-te! Eu inscrevi-me.
Pouco tempo depois estava a entrar o portão do CCPC, para arrancar
com um projecto novo: o apoio jurídico. Todas as 4ªfs de manhã
Cristina Ribeiro dedica-se exclusivamente aos mais neces-sitados. É
a máxima do Direito aplicada na sua plenitude: quero assegurar
a defesa a todos. Vejo o voluntariado e o trabalho da mesma forma em termos
pro-fissionais, mas dá-me mais prazer fazer voluntariado. Vejo
isto como uma compensação. Às pessoas que posso cobrar,
cobro, quem não pode, não cobro.
Para além de conselhos jurídicos, Cristina acompanha os
seus utentes em tudo o que precisam. Às vezes basta uma cartinha
ao juiz ou uma declaração, que são coisas simples
que fazem com que tudo se resolva bem rapidamente. Porém,
muitos casos exigem a presença em julgamento, ficando a voluntária
a representar os seus utentes, gratuitamente. Há muitos processos
crime, principalmente de pessoas que se estão a reabilitar na Casa
Jubileu. Foram normalmente furtos realizados numa altura em que eram outra
pessoa. A prisão iria deitar por água abaixo todo o trajecto
percorrido na reabilitação.
São estes casos criminais que mais motivam a voluntária,
que recorda com carinho especial os seus três primeiros casos ao
serviço do Centro Comunitário. Foram três processos
crime, dois dos quais admitiam desistência da queixa. Um deles foi
particularmente complicado, porque o queixoso recuou da desistência
mesmo antes do julgamento. Foi uma grande luta à entrada da sala
de audiências para conseguir que retirasse a queixa. Felizmente,
foi menos uma condenação. Para além da alegria
do sucesso nos três casos, ficou o carinho pelos réus. Neste
tipo de voluntariado é complicado não criar amizades.
Quando lhe falamos em desistir ou nas dificuldades dos processos, diz
que apenas quer dar o melhor de si. Se em 10 utentes eu conseguir
resolver metade dos casos, para mim já é óptimo.
E os casos são os mais variados: legalizações, dívidas,
divórcios, poder paternal, contratos de trabalho, contratos assinados
sem consciência, etc. Complicado? Já estou habituada,
diz, com um sorriso que mostra que para já não pensa em
deixar o voluntariado. E, a julgar pelo seu currículo, não
julgamos que algum dia o consiga fazer.
(Cátia
Silva)
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Cristina
Ribeiro
43 anos partilha a vida de advogada e o voluntariado na área da advocacia
com o gosto pela leitura, pelas viagens e pelos passeios. Adora também
fazer exercício físico, se a vida agitada lhe permitisse.
Mas conviver com os amigos e com a filha de 10 anos são as suas
prioridades. |