VOLUNTARIADO - experiências


Cristina Queirós é voluntária no AJAC (Associação de Jovens Artesãos de Carcavelos) e na distribuição de almoços, há mais de um ano. Tudo começou quando, «após 25 anos de trabalho, eu mudo a minha vida profissional», conta.
Era dona de uma clínica médica mas quando um Banco se ofereceu para comprar o espaço não pensou duas vezes. «Estava tão cansada», confessa, «então pensei que tinha 45 anos, que era melhor descansar um pouquinho que há anos que não fazia outra coisa senão trabalhar de manhã à noite».
Foi então que se deparou com aquilo que é muito cobiçado por quem não tem e poucas vezes satisfaz os que o têm – o tempo livre. Cristina conta que «nos primeiros tempos tudo correu lindamente. Achei tudo aquilo engraçadissimo. Ao fim de seis meses, comecei a não achar muita graça. E, ao fim de um ano, dou por mim deprimida». Cobrava aos filhos e ao marido o tempo que tinha a mais e que eles tinham a menos. Foi então, que deu o Grito do Ipiranga. «Não, eu tenho de fazer alguma coisa».
A sua ligação ao voluntariado vem dos tempos de escola. Diz que sempre que era preciso voluntários para peditórios era a primeira a levantar o braço, pois «era um dia em que não ia à escola, não tinha faltas e andava a passear». Confessa que as razões mudaram ao longo dos anos, mas nunca mais parou.
Chegou ao Centro Comunitário através do filho, que frequentou os Narcóticos Anónimos. Foi ele que lhe disse o quão dinâmico era o Centro Comunitário. Um dia resolveu espreitar o local. Fez uma entrevista com a Natércia Martins e ofereceu-se como voluntária. Não tinha preferência por nenhuma área de trabalho, só não tinha muita paciência para os “anjinhos” (leia-se, crianças).
«Havia várias opções, entre elas os amigos do AJAC, que estavam sem ninguém em regime de voluntariado. Fui ao sótão ver os amigos que lá estavam a fazer bonecos. Achei que devia experimentar e ver se me adaptava a eles e eles a mim. Experimentámos. Estou aqui há um ano...».
Explica que não é uma voluntária para ensinar, «eu faço a parte lúdica. Sempre que estou com eles estamos numa brincadeira pegada: a rebentarmos balões, a brincarmos com a cola e a atirarmos coisas ao ar». Para além do divertimento, Cristina arranja sempre um tempinho para aquilo a que chama «conversas de pé de orelha». «Sou uma amiga a quem contam as coisas deles, que são importantes e não saem dali».
Ao fim de algum tempo, faltaram também pessoas para a distribuição dos almoços nas casas de idosos, que não conseguem sobreviver sem esta ajuda do Centro. Cristina disponibilizou a sua terça-feira, até porque não almoça. «Como uma sandes e um café. Ainda mantenho o mesmo ritmo de quando trabalhava. É uma questão de hábito», explica. E agora, só não faz mais coisas, porque lhe falta novamente o tempo livre.
No entanto, mostra-se satisfeita com o trabalho que aqui realiza. Confessa que não foi uma mudança radical na sua vida, já que viveu sempre voltada para os outros e fazia voluntariado, embora não de uma forma tão permanente. O que mudou? «A vontade de fazer ainda mais pelos outros. Agora, quero dizer mais alto e a mais gente que é preciso fazer alguma coisa. Não podemos esperar pelo Estado para andar com qualquer projecto para a frente».
Vale, por exemplo, o trabalho desempenhado pelos funcionários do Centro, como Cristina vê na distribuição dos almoços, em que é preciso subir e descer centenas de escadas ou desfazer os alimentos para que os idosos consigam comer.
É um trabalho que não se paga. Há uma preocupação e carinho que o Estado não pode providenciar. Cristina confessa que foi tudo isto que viu no Centro, que mudou a sua maneira de pensar. «Eu também fui uma pessoa que, ao longo da vida, tive uma luta constante por subir e ter sempre o melhor. Mas, de repente, cheguei ao fim de 20 anos e perguntei: Porque fiz tudo isto?».
Nesse momento, conta, parou para pensar e deparou-se com a toxicodependência do filho, hoje recuperado e, explica, “comecei a pesar na balança se, o ter dado tudo e ter trabalhado tanto para não faltar nada aos meus filhos, teria valido a pena”. Acrescenta, “muitas vezes, substituímos materialmente a falta de acompanhamento que damos aos nossos filhos, pensando que isso pode substituir. Hoje, sei que não.»
No futuro, não pondera a hipótese de deixar o voluntariado. «Só paro se tiver um grande problema, do género de ficar paralisada». A promessa é de continuar a fazer coisas, «mais, se possível, e noutras áreas».

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Cristina Queirós
Parede
47 anos
Reformada

Cristina Queirós tem 47 anos. Estudou Engenharia Química e trabalhou como analista. Durante 25 anos, dirigiu um consultório médico. É casada e tem dois filhos, um rapaz de 28 anos e uma rapariga com 25. Aos 45 anos, teve a oportunidade de deixar de trabalhar e agarrou-a com as duas mãos. Esteve um ano a dar apoio à empresa do marido e à família mas, o tempo livre era excessivo e começou a não achar a mínima graça. Foi então, que veio até ao Centro. Conheceu o AJAC e todos os jovens artesãos. Confessa que ficou encantada.