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Carmen Fernandez faz vários quilómetros para chegar a Carcavelos, pois mora perto do Aeroporto de Lisboa. Habituada a ultrapassar obstáculos, não vê qualquer problema em morar no centro da capital e fazer voluntariado nos arredores e, mais particularmente, em Cascais. Enfermeira de profissão, começou a trabalhar aos vinte anos de idade e durante 38 anos nunca parou. Em 2003 tinha somado horas de trabalho suficientes para a reforma e, sempre muito prática, fechou essa janela da sua vida e abriu uma nova, porque para si o mais importante é nunca parar de ser útil.
Deixou, no entanto, uma pequena fresta aberta na janela da sua profissão, pois continua a acompanhar esporadicamente um cirurgião com quem sempre trabalhou. Uma possibilidade que lhe permite manter-se activa, mas que em 2003 se traduzia em muito poucas horas de actividade para uma pessoa habituada ao trabalho diário. “Tinha muito tempo livre”, recorda, quando conta que foi ao falar com uma médica sua amiga, directora de uma instituição para crianças em risco, que esta lhe propôs pela primeira vez o voluntariado. Antes nunca tinha pensado nisso, pois o trabalho e a família ocupavam-na a tempo inteiro.
O Voluntariado
Decorria o ano de 2004 quando Carmen Fernandez entrou pela primeira vez na casa de acolhimento para crianças em risco do concelho de Cascais, que acolhe menores até aos 12 anos. Hoje mantém-se na instituição três vezes por semana e as suas tarefas têm sido as mais diversificadas. “Para mim o voluntariado é fazer de tudo um pouco, o que for preciso. Normalmente presto apoio às crianças, nas brincadeiras, mas se é preciso ir com elas às consultas e aos hospitais, também vou”, refere. “Houve até um dia”, recorda, “que a senhora da limpeza faltou e foi preciso limpar as casas de banho”. Carmen arregaçou as mangas sem hesitações, pois, para a voluntária, mais pesado do que as limpezas é a realidade com que se depara nesta instituição. “Nunca tinha trabalhado com crianças em risco”, desabafa. A vida tratou de lhe mostrar como o mundo é desigual.
Há alguns meses surgiu uma nova possibilidade para se dedicar ao voluntariado. Estava a voluntária a escolher os brinquedos doados para a instituição com uma das funcionárias, Ana Isabel Nicolau, quando esta lhe falou do Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos. Os seus pais, contou, são a Isabel e o Alexandre Nicolau, o casal que o Ágora entrevistou na edição do mês passado, voluntários no Banco de Roupa. Este serviço do Centro Comunitário precisava na altura de mais ajuda, uma vez que funciona unicamente com voluntários. Carmen precisava de se manter ocupada, especialmente após o falecimento repentino do marido, com um enfarte. “Se puder ser útil....”, disse Carmen, e não foi preciso dizer mais nada.
Quando a entrevistámos, estava com o casal Isabel e Alexandre em arrumações na garagem que serve de espaço ao Banco de Roupa, que recolhe vestuário e calçado em segunda mão e o distribui pelos mais necessitados. Um local onde a voluntária tem também aprendido muito sobre a vida. “As crianças ensinam-nos muita coisa, mas aqui fui confrontada com a realidade de muitas pessoas”, conta, revelando: “mesmo depois de tantos anos no hospital, nos primeiros dias fiquei um bocado chocada”. O que mais a impressionou? A necessidade, que é visível nos rostos e nas vozes das pessoas, apesar de haver quem defenda que não há pobres em Portugal.
É para todas estas pessoas que a nova janela da vida de Carmen está aberta. Porém, só a abriu quando a janela anterior ficou entreaberta, pois para a voluntária é essencial, acima de tudo, profissionalismo. “Não gosto de faltar e não gosto daquilo a que chamo de carideza. Ou a pessoa vem para o voluntariado porque gosta ou se é só para passar o tempo, então é melhor não vir”, defende. Hoje, Carmen Fernandez está rendida ao trabalho voluntário, que considera muito gratificante. “Efectivamente, não há remuneração, mas há outras compensações”, diz, sempre muito prática. E ponto final parágrafo.
(Cátia Silva)
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Maria Del Carmen Fernandez
60 anos
Com um filho já crescido e a trabalhar, não precisa de se dedicar tanto à família e por isso dá mais aos outros, através do voluntariado. Nas horas vagas, ainda tem tempo para a sua ginástica, duas vezes por semana, e para os seus livros, quando não tem de ajudar na sala de operações. Para além de tudo isto, Carmen tem ainda duas fortes paixões. A primeira é o cinema, e a segunda, as exposições de pintura, uma herança que lhe ficou do marido. Quando o tempo livre ainda o permite, não perde nunca boas oportunidades para viajar.
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