VOLUNTARIADO - experiências

O voluntariado entrou na vida de Maria Berta por um mero acaso. Tinha 21 anos quando o seu actual marido (então, noivo) teve de ir para a Guerra na Guiné por dois anos, e surgiu-lhe então uma oportunidade: participar no Projecto Promoção Humana e Evangelização, que procurava ajudar no desenvolvimento das aldeias portuguesas. Foi assim que partiu de malas e bagagens para Portalegre, onde ficou a dar aulas de Moral e participou no novo projecto, que visava criar centros infantis, grupos de alfabetização, e evangelizar.
Passaram-se dois anos que, conta, viveu “de maneira extre-mamente enriquecedora”, aprendendo a viver em comunidade e fazendo amizades que ainda hoje mantém. “Estávamos todas empenhadas numa mesma missão, e isso fez com que criássemos laços muito fortes”. Um deles ligou-a para sempre ao Centro Comunitário de Carcavelos. Mas sobre isso só mais tarde nos conta...
Com o regresso do marido, voltou para Lisboa e dedicou o seu tempo à família. Porém, pode-se mesmo dizer que quem uma vez é voluntario, jamais o esquece. Foi por isso que Maria Berta fez mais do que se dedicar ao lar, mantendo-se a dar aulas de Moral a alunos do 3º ciclo. E estas não eram umas aulas normais... “Sempre promovi com os meus alunos trabalho voluntário, com visitas a lares de idosos (havia mesmo o Clube dos Avós, que consistia num grupo de alunos adoptarem um “avô” num lar de idosos), visitas à Aldeia SOS, ajudas ao Banco Alimentar (nos dias da colecta de alimentos e depois na sua armazenagem), palestras com membros da AMI, etc...”. Explica: “não era um trabalho continuado, mas o espírito era o mesmo que no voluntariado”.
Como se isto não fosse já dar de si aos outros, Maria Berta ainda se inscreveu para dar aulas às turmas de currículos alternativos, que exigem dos professores um horário extra e reuniões semanais para programar um ensino em tudo especial. Mães adolescentes, jovens com sucessivos insucessos escolares, filhos de famílias desfavorecidas, todos encon-travam um lugar nestas turmas, onde alguém apostava sempre neles. “Nós entusiasmamo-nos porque vimos que valia a pena”.
Há um ano Maria Berta reformou-se. Não ficou com mais tempo livre, porque as suas duas netas não a deixam sequer respirar, mas logo arranjou um tempinho para o voluntariado. E assim chegou de forma definitiva ao Centro Comu-nitário de Carcavelos, que já conhecia desde que foi colocada a primeira pedra. Isto porque a Luísa França foi uma das voluntá-rias e amigas para a vida que conheceu no projecto de Porta-legre.
Mais difícil foi escolher uma área de interesse, uma vez que em todas se poderia enquadrar. Porém, uma delas despertou-lhe um interesse particular: o projecto Intervir, que procura ajudar famílias desorganizadas e desestruturadas a encontrar o caminho mais certo. “Pelo que li no papel, achei que me sentiria à vontade. Porém, é mais difícil do que eu imaginava. Eu julgava que tinha estado sempre atenta à realidade social, até porque tenho amigas assistentes sociais e a minha irmã também o é, mas fiquei surpreen-dida.” A primeira dificuldade é logo de ordem logística: conseguir um horário compatível entre os voluntários e as famílias carenciadas. Depois surgem os problemas de mais difícil solução: “tentar ensinar uma pessoa a gerir o pouco que tem, a não desistir, a procurar soluções,....São problemas para os quais não temos solução, não há resposta, e isso é muito complicado... é muito duro....”
Além disso, conta, há famílias que não querem ser ajudadas e que rejeitam o apoio do Centro Comunitário. Porém, isso não demove a voluntária, que prefere pensar numa forma alternativa de chegar perto dessas famílias. “É muito cedo para desistir, porque acho que os objectivos deste projecto têm pernas para andar e são úteis. Eu tenho obrigação de ajudar aos 60 anos, com três filhos criados, duas netas e centenas de alunos...” A ajudá-la tem casos mais alegres, como o de uma família africana, em que uma das crianças tem problemas de saúde. Cada vez que o filho é internado, a mãe telefona a Maria Berta. “Eu não posso fazer nada mas ela só quer falar comigo”. Um sinal de confiança e amizade, que pode mudar a vida dessa família.
Quando entrou para o voluntariado, Maria Berta queria dar o seu contributo. E é por isso que continua e continuará a ser voluntária.


(Cátia Silva)

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Maria Berta

tem 60 anos, e orgulha-se de ter tido uma vi-da cheia de coi-sas boas. Teve duas filhas gé-meas, que hoje têm 32 anos, e um rapaz que hoje tem 30 anos. Todos estão casa-dos e já lhe deram duas netinhas, uma com 1 ano e a outra com 3 anos acabados de fazer. Para além da família, dedicou 34 anos da sua vida aos seus alunos de Educação Moral, Formação Cívica e Desenvolvimento Pessoal e Social. Hoje está reformada e continua a fazer o que mais gosta: dar um pouco de si aos outros.