VOLUNTARIADO - experiências


Maria Aurora Aguiar é talvez um nome que não vos diz nada ou que vos faz lembrar alguém. Mas se eu disser Professora Aurora, já muitos saberão quem é. Desde Novembro de 1996 que é voluntária do projecto “Esperança de Recomeçar”, dedicado ao tratamento e recuperação de jovens toxicodependentes.
O termo carinhoso por que muitos a tratam vem dos tempos em que era professora do primeiro ciclo do ensino básico na Escola do Alto dos Lombos. No entanto, a terminologia esconde uma realidade dramática. A voluntária conta que é chamada Professora Aurora porque, «infelizmente, vieram parar ao Esperança de Recomeçar alguns miúdos que foram meus alunos na escola primária».
O voluntariado só surge na sua vida com o Centro Comunitário de Carcavelos. «Nos últimos anos em que trabalhei», conta, «havia um intercâmbio muito estreito entre a minha escola e o Centro», especialmente entre as crianças e os idosos. A partir dessa altura decidiu que quando se reformasse iria ser voluntária, pois «não gostaria de ficar em casa à volta dos tachos».
Das várias áreas existentes no Centro Comunitário optou pela toxicodependência, porque sentia uma certa «saturação» de 36 anos a lidar com crianças e porque, diariamente, assistia à realidade vivida no antigo Bairro das Marianas (o grande pólo de tráfico de drogas do concelho).
O princípio foi conturbado e confessa que pensou mesmo em desistir. «Eu não conseguia transpor o portão do Centro e deixar tudo para trás», explica. O tempo ajudou-a a «gerir os sentimentos» e, muitas vezes, a deixar-se conduzir pela razão, deixando de lado as emoções. Isto não significa que hoje sinta menos, mas ajuda a voluntária a desempenhar melhor o seu trabalho.
Com algumas lágrimas a quererem sair-lhe dos olhos, recorda um episódio que lhe dá forças para continuar. Um dia teve de ir à farmácia, eram já umas quatro horas da manhã, e o primeiro impulso foi ir a pé (até porque com os sentidos únicos de Carcavelos se chega mais depressa a pé que de carro). A meio do caminho ouve alguém perguntar – Professora Aurora, aqui a esta hora? «Era um dos nossos símbolos, um rapaz que hoje está muito bem». Não deixou a voluntária sozinha nem por um segundo, acompanhando-a à farmácia e a casa. «Só quando fechei a porta é que se foi embora».
Esta é uma das muitas histórias que já viveu no Centro Comunitário. A professora está todas as manhãs na sala do «Esperança», onde conversa com os jovens toxicodependentes que aparecem para «tomar um café e fumar um cigarrinho». Dedica ainda duas tardes ao Centro, uma para se reunir com a equipa do projecto e outra para visitar os jovens que estão presos, para quem, muitas vezes, os voluntários do Centro são a única visita.
O acompanhamento exterior está também a cargo da professora Aurora, que ajuda os utentes a um nível mais institucional, como, por exemplo, na ida a consultas e exames médicos. Todos estes serviços não poderiam ser assegurados se não houvesse voluntários. «Sem voluntariado o projecto nunca teria crescido tanto».
Apesar de ter presenciado mais derrotas que vitórias no «Esperança de Recomeçar», a voluntária agradece a oportunidade de trabalhar com estes jovens toxicodependentes. Hoje, mesmo quando passa deprimida o portão do Centro Comunitário, sai sempre com a sensação que fez o que estava ao seu alcance. Aprendeu a viver como voluntária e hoje afirma que «o comer e o vir para o Centro estão lado a lado», são ambos necessidades básicas na sua vida.
(Cátia Silva)

Home

 

Aurora Aguiar
Carcavelos
62 anos
Reformada


Maria Aurora Aguiar, mais conhecida por Professora Aurora, tem 62 anos. É casada e tem dois filhos, nascidos durante os 13 anos em que viveu em Luanda (Angola). Reformou-se há seis anos, quando já tinha um netinho, e veio para o Centro Comunitário como voluntária. Hoje tem três netos, «uma verdadeira riqueza» segundo a voluntária, e continua entre nós, «com muita força e alegria».