VOLUNTARIADO - experiências
     

Ana Pais, ou Ani, como a tratam no Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, começou a ser voluntária há um ano, no “Esperança de Recomeçar”, um projecto de acompanhamento a toxicodependentes. Porém, ser voluntária era um propósito de há quase vinte anos. “Já tinha pensado: quando tiver tempo, quando for para a reforma, vou fazer voluntariado”, conta. Um pedido que, como se costuma dizer, “entregou para Deus”. Era na altura educadora de infância, profissão que adorava, e tinha os seus dois filhos para criar.
Porém, há dois ou três anos atrás, tudo começou a mudar na vida de Ana, por opção própria. “Achei que devia encerrar o ciclo das crianças, tinha outras coisas para fazer nesta vida”, revela. Coragem? “Não”, diz, “foi fé”. Abriu então um negócio próprio e decidiu que tinha de arranjar espaço na sua vida para o voluntariado. A primeira ideia, revela, foi trabalhar no IPO (Instituto Português de Oncologia) com crianças em fase terminal, mas durante um ano arrastou o dia da inscrição. “Eu achava que era preguiça”, mas certamente era o que muitos chamam destino.
Pouco tempo depois, a sua mãe foi internada, e foi aí que Ani colocou um ponto final na ideia de trabalhar no IPO. “Eu queria levar a boa disposição às crianças, mas percebi que não ia conseguir naquele ambiente, com os tubos e as máquinas”. Porém, continuava a querer ser voluntária, e, conta: “um dia ia a passear e a pensar no que poderia fazer e de repente percebi: são os sem-abrigo e os toxicodependentes”. Como é que esta ideia lhe surgiu? “Não sei. Simplesmente senti”. Para os que acreditam nas coisas do destino, é importante frisar que Ana Pais sempre viveu na Parede, bem perto do Bairro das Marianas.
Com a sua vontade clarificada, Ana foi de imediato falar com a Cruz Vermelha Portuguesa a explicar o que queria fazer. Reencaminharam-na para o Centro Comunitário, do qual nunca tinha ouvido falar. Inscreveu-se para a área da toxicodependência e pouco tempo depois estavam a pedir a sua ajuda. Foi assim que, há cerca de um ano, Ani entrou para a equipa de voluntários do CCPC.

Porque ninguém escolhe ser toxicodependente Ana Pais dedica agora duas manhãs por semana a conversar e, acima de tudo, a ouvir histórias de vida dos toxicodependentes que frequentam o Centro Comunitário de Carcavelos. Ao contrário do que possa parecer, Ani conta que “é muito fácil conversar com eles”. Para além de estar no Centro, a voluntária visita ainda os que acabam por ir parar à prisão e que pedem às pessoas do Esperança que lhes dediquem algum tempo. “A primeira vez fez-me alguma impressão entrar na prisão, mas agora já me habituei”.
Quando disse à família que era este o voluntariado que queria fazer, todos a desaconselharam, mas Ani mantém a certeza de que escolheu o que mais gosta. “Adoro aquilo que estou a fazer”, diz, com um sorriso claramente sincero, “é a minha paixão dentro do voluntariado”. Quando lhe perguntamos se nunca lhe apeteceu baixar os braços e desistir, revela-nos a postura que adopta, na vida e no voluntariado: “não fazer julgamentos e não ter expectativas”. “Estou aqui para mostrar aos toxicodependentes que há quem os respeite, e que eles são seres humanos iguais a mim”. Até porque, defende, “ninguém aos 15 anos de idade diz que quer ser toxicodependente quando for grande. Esta não é uma escolha, houve coisas que os levaram nesse caminho. Eles são responsáveis pela situação, sem a terem escolhido”.
Assim, esta experiência no voluntariado, mais do que mudar a vida de Ani, tem servido para a voluntária conseguir alterar a mentalidade das pessoas que a rodeiam. “Com as histórias que vou contando, os meus amigos e a minha família estão a mudar de atitude”. E são muitas as experiências gratificantes que já viveu no Esperança de Recomeçar, revela, preferindo guardar para si estes momentos privados. “São coisas que se vêem, se sentem e se ouvem”. Tudo porque é voluntária. “A partir do momento em que uma pessoa está a dar gratuitamente, recebe-se muito”. É por tudo isto que, neste momento, Ani não pensa sequer algum dia deixar o voluntariado e o Esperança de Recomeçar.

B.I.:
Perto de completar meio século de vida, Ani ocupa o seu tempo entre a sua empresa, o apoio aos dois filhos, um com 20 anos e outro com 26, e a leitura, e o convívio com os amigos. Mudou de vida há dois anos por acreditar que era possível melhorar, e, efectivamente, melhorou.

(Cátia Silva)

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Ana Pais
50 anos

Perto de completar meio século de vida, Ani ocupa o seu tempo entre a sua em-presa, o apoio aos dois filhos, um com 20 anos e outro com 26, e a leitura, e o convívio com os amigos. Mudou de vida há dois anos por acreditar que era possível melhorar, e, efectivamente, melhorou.