VOLUNTARIADO - experiências
     
 

Há quem diga que depois dos 50 anos começa uma nova vida. Com Ana Maria Almeida foi um pouco isso que aconteceu. A sua vida não mudou inteiramente, mas depois de reformada encontrou a disponibilidade e a tranquilidade necessárias para se dedicar aos outros, pois até aqui o trabalho e a família ocuparam-na a tempo inteiro. Reformada desde 2003, aproveitou os primeiros três anos para descansar, mas em Outubro de 2006 sentiu "que queria fazer alguma coisa de útil e pareceu-me que o voluntariado seria uma boa aposta", recorda.
Estávamos em Outubro de 2006 e, quando pensou em voluntariado, Ana Maria Almeida lembrou-se do Centro Comunitário de Carcavelos. "Moro aqui perto, por isso esta comunidade diz-me muito", justifica, apesar de reconhecer que nunca tinha entrado no CCPC, conhecendo apenas o sítio e alguma da sua actividade. Com prontidão e sem hesitar, entrou e inscreveu-se. Uma semana depois estava a ser apresentada num projecto que envolve crianças, que foi o seu único requisito quando escolheu ser voluntária.
Recorda que estava um agradável dia de sol quando o Agostinho a levou a conhecer os nove alunos que integram a Sala de Estudo, um espaço que funciona desde 2005 e que é destinado a crianças entre os 10 e os 13 anos (frequentadores do quinto e sexto ano). O objectivo deste projecto é acompanhar e prestar apoio escolar, facilitando a transição do primeiro para o segundo ciclo e procurando criar rotinas diárias e hábitos de estudo.
Ana Maria Almeida recorda como se fosse hoje as palavras do Agostinho quando entrou na sala: "esta senhora podia ir apanhar sol, mas veio aqui para vos ajudar", explicou, procurando transmitir a estas crianças o que é o voluntariado e o respeito que devem ter por quem se dedica a eles gratuitamente. Esse respeito, Ana Maria Almeida sente que se mantém até hoje. "Não são crianças nada problemáticas. São muito queridos e respeitam-me". Isto apesar de algumas desilusões que tem tido quando encontra alunos preguiçosos, que mentem ou que não sabem sequer qual é a bandeira nacional.
Situações que, para a voluntária, denotam problemas maiores, que considera alarmantes. "As crianças estão hoje em dia cada vez mais difíceis, mas a culpa não é delas. É da educação que lhes é dada. Eu tenho filhos, sei como é", afirma, ressalvando que ainda agora tem de dedicar atenção à sua filha de 28 anos. "Hoje em dia os pais não investem tempo com as crianças. Nota-se que há crianças que têm problemas de comportamento que não são mais do que chamadas de atenção. Eles precisam que os pais percebam que eles existem". Além de que há noções básicas de cultura geral que não cabe à escola ensinar, mas sim aos pais, através do diálogo. O que é assustador conclui, é "que esta é a nossa futura geração".
Por sentir isto, e como uma verdadeira "mãe", a voluntária procura, na sua sala de estudo, que as crianças, para além de estudarem e aprenderem as lições da escola, comuniquem e fiquem com algumas noções de cidadania e de cultura geral. "Tento transmitir-lhes um pouco do que eu sei e do que transmiti aos meus filhos". Porém, lamenta, "é um bocado difícil, pois só estou com eles uma vez por semana, cerca de três horas. Sinto que os estou a ajudar, mas ainda se vê pouco".
Quem já sente que ganhou alguma coisa com este voluntariado foi a própria Ana Maria. "Estou a relembrar uma série de coisas e estou a aprender imenso com eles", sorri, acrescentando: "pela positiva e pela negativa". O que é bastante positivo é a amizade das crianças. "Na semana seguinte a eu ter começado vieram logo a correr dar-me um beijinho e dizem-me para vir mais vezes", conta, mostrando que isso também a incentiva. Uma amizade que considera importante e verdadeira. "Estou a gostar imenso, é para continuar", garante.


(Cátia Silva)

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Ana Maria Almeida
56 anos


Trabalhou como bancária e está reformada há cerca de 3 anos. Casada, é mãe de um casal: uma rapariga com 28 anos, psicóloga clínica, e um rapaz com 29 anos, informático de gestão. Para além do Centro Comunitário, a voluntária tem uma vida preenchida por algum "voluntariado" com a família e com muito desporto: vai ao ginásio três ou quatro vezes por semana e sempre que pode gosta muito de caminhar. Em compensação, também é perita em fazer bolos. Porém, diz, "evito fazê-los". Compreendemos!