VOLUNTARIADO - experiências
     
 

«Boa noite. Tudo bem?», vai cumprimentando Ana Formigal ao entrar no Café S. Jorge, provando que é em Carcavelos que está em casa, uma vez que aqui viveu enquanto nova. Apesar de se ter mudado para Rana, continua com o coração em Carcavelos, e nunca abandonou a sua Paróquia. Foi assim que chegou ao Centro Comunitário, quando há cerca de seis meses se encontrava à conversa com o Padre Jorge e outras pessoas, e se mostrou disponível para ajudar. “Uma das coisas que acho que faz todo o sentido é o serviço comunitário. É uma das componentes principais do cristianismo e sempre me entu-siasmou”.
E como é impossível dizer não a alguém que estende a mão, surgiu logo a oportunidade de colaborar no projecto de vo-luntariado do Centro..... E foi assim que Ana Formigal conheceu aquela que carinhosamente chama “a minha idosa”, que visita com frequência, para conversar, passear um bocado e tomar uma cafezinho. O principal problema desta senhora, conta-nos, é a pouca mobilidade, que a im-possibilita de sair sozinha de casa. “Para ela desde que saia um bocadinho já é óptimo e só sai com a empregada, que vai duas vezes por semana, a filha, quando a visita, e comigo”.
“Nos primeiros dias estava um bocado nervosa”, conta a voluntária, enquanto explica que não sabia o que perguntar, nem sobre o quê falar. “Depois com o tempo fui ficando mais à vontade, pois pensei: esta é uma pessoa igual a mim, é um ser humano”, e, no fundo, tudo o que tinha de fazer era ouvir e conversar. “O que é a coisa mais simples do mundo”, acrescenta. “Ao princípio achei que não devia falar de mim, mas com o tempo libertei-me completamente dessas coisas. Vou lá para a conhecer melhor e para me dar a conhecer melhor. É preciso fazer como me sinto bem, ser natural”. E foi assim que, conversa após conversa, se foram tornando duas amigas. “Quando telefono, ela reconhece-me logo. E pergunta também como é que eu estou, não é só saber coisas sobre ela”.
Os dias que destina a esta nova amiga são normalmente os domingos, após o almoço, uma vez que é o horário mais confortável para as duas, mas, explica, “Mas se não lhe ligar ao domingo, não me cobra nada. Eu aprendi, e fiquei surpreendida por ver, que são pessoas muito disponíveis: que não exigem da nossa parte dis-ponibilidade, e que a qualquer momento podemos ir visitar”. É por isso, diz, que neste tipo de voluntariado deixa totalmente de fazer sentido a velha desculpa do “não tenho tempo”.
“A segunda surpresa que tive foi a de sentir que estamos, de facto, a prestar um serviço a uma determinada pessoa, que de-monstra de diversas formas que lhe transformo um dia negro (porque ficava em casa a ver televisão) num dia mais bonito”, conta. “Quando chego a casa dela, está sempre pronta, quase de mala ao ombro e óculos escuros. Preparadíssima para sair”, diz, em jeito de exemplo, “e as despedidas são sempre muito calorosas”, acrescenta. “Tudo isto é muito compensador, não só pelo facto de saber que estou a fazer uma coisa que é certa, mas por sentir que quando saio de ao pé daquela pessoa, ela ficou um bocadinho mais feliz”. Do mesmo modo, “sinto-me um bocadinho mais feliz cada vez que saio de ao pé dela. É bom sentir que há alguém a quem nós realmente melhoramos o dia, e isso não é muito fácil de acontecer”.
O marido da voluntária, Carlos, tornou-se por acréscimo no verdadeiro “homem de serviço” ou “piquete de emergências”, que aparece rapidamente sempre que é preciso pregar um prego, trocar uma lâmpada, arranjar uns estores ou uma torneira. Pequenas tarefas que para muitos são básicas, mas que para pessoas de mais idade se tornam verdadeiros obstáculos a bens que lhes são essenciais. Com estas ajudas, Ana diz que está pronta para fazer mais amizades, ou seja, para ser voluntária de mais um idoso. “É grupo que está muito esquecido, cada vez menos as famílias têm tempo para eles, e são cada vez mais”. É por isso que lhes dedica o seu tempo livre, o que, diz, “não custa mesmo nada”.

(Cátia Silva)

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Ana Formigal
35 anos

Trabalha numa agência de publicidade, entre a comunicação e os números, mas recentemente descobriu prazeres em tarefas dignas de qualquer dona de casa prendada, como o crochet, os arraiolos e a cozinha. Para além destes hábitos antigos que começam a estar tão na moda, gosta de tudo o que as outras pessoas gostam, como estar com os amigos

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